Roubos na Argentina, o motim policial aliado à marginalidade

A violência arraigada na Argentina e a falta de democratização nas forças de segurança foram o caldo cultural da sublevação policial e da onda de saques dos últimos dias que deixou pelo menos 12 mortos e dezenas de feridos, segundo analistas. Ao presidir, na terça-feira, os atos e o festival popular pelos 30 anos de democracia ininterrupta no país, a presidente Cristina Kirchner disse que, assim como "se conseguiu incorporar as Forças Armadas no processo democrático, é preciso fazer o mesmo com as polícias provinciais. Os saques foram planejados".

CENÁRIO: Josefa Suarez e Daniel Merolla* / AFP,

11 de dezembro de 2013 | 23h38

Três décadas depois da ditadura, com 370 chefes e oficiais condenados por crimes de lesa humanidade, os militares permanecem calmos nos quartéis, mas a polícia não foi reformada. Cidades de várias províncias se converteram em terra de ninguém durante uma semana de pânico para milhões de moradores, muitos dos quais se armaram com rifles, paus e machados para defender suas casas e suas lojas na ausência dos policias sublevados e em greve por melhorias salariais.

"No passado, os saques estiveram vinculados às crises econômicas (1989 e 2001), mas hoje eles ocorrem em grandes cidades vinculados a tensões sociais, avanços do narcotráfico e do crime organizado", disse à AFP o cientista político Rosendo Fraga, da consultoria Nueva Mayoría.

Diferentemente dos saques por fome e das manifestações populares pela crise econômica de 2001, a tensão foi iniciada por grupos organizados a partir de redes sociais e mobilizados em caminhonetes e motos, segundo denúncias oficiais. "De maneira concomitante com manifestações policiais, produziram-se atentados coletivos contra a propriedade", afirma um documento da procuradoria.

Os saques começaram em Córdoba, a segunda maior província em número de habitantes, e se propagaram como um rastilho de pólvora para 16 das 24 províncias do país. "Os saques em Córdoba tiveram a mesma gênese que os ocorridos há quatro anos no Chile, durante o terremoto, e antes, em Louisiana (EUA), motivados pelas inundaçõesapós o furacão Katrina", acrescentou Fraga.

Nos últimos tempos, o fim de ano trouxe um clima de agitação social na Argentina, com roubos de lojas e ocupações violentas e maciças de terras pelos "sem-teto". "Eles não pedem trabalho ou inclusão social, querem respostas imediatas, querem que aumentem seus subsídios sociais e o fazem de maneira extorsiva", disse Enrique Zuleta Puceiro, professor de direito e sociologia da Universidade de Buenos Aires.

As polícias provinciais são formadas por cerca de 200 mil homens, enquanto a força federal, que não aderiu ao motim, tem cerca de 44 mil, mas o governo teve de lançar mãos de 34 mil policiais militares da Gendarmeria para restabelecer a ordem. "Uma das grandes dívidas da democracia é a democratização das forças policiais. Elas têm vínculos com o crime organizado e capacidade para ampliar a intensidade da violência urbana", disse o pesquisador Ricardo Ragendorfer.

Autor do livro La secta del gatillo (A seita do gatilho, em tradução livre), Ragendorfer afirmou que "a força policial deve se submeter ao poder político e não manejar-se como um autogoverno". O pesquisador recordou que, em Córdoba, o motim se produziu depois da destituição da cúpula policial por laços com o narcotráfico e a mensagem dos rebeldes foi: "Não se metam conosco, não prendam nossos chefes".

"É recorrente o tema do aumento da violência na Argentina. Há 20 anos, era a recordação do terrorismo de Estado. Agora, discutimos se torcidas organizadas podem comparecer a jogos de futebol, como a polícia deve se comportar em um festival de rock ou a nova violência do narcotráfico", disse a socióloga e escritora Beatriz Sarlo.

"Estamos diante de um problema novo, que não tem a ver com fome e subsistência, mas com a desintegração social", afirmou o cientista político e especialista em assistência social Daniel Arroyo.

Segundo a Confederação Argentina das Empresas Médias, foram atacados, em uma semana, 1,9 mil estabelecimentos comerciais e registrados prejuízos de pelo menos US$ 100 milhões. Na Argentina, 3,5 milhões de pessoas recebem um subsídio mensal de aproximadamente US$ 80 para combater a pobreza.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*JOSEFA SUAREZ E DANIEL MEROLLA SÃO JORNALISTAS

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