Roupas à prova de balas ditam a moda no México

Para atender mercado do pânico e da insegurança, loja lança peças blindadas

Marc Lacey, NYT, O Estadao de S.Paulo

07 de outubro de 2008 | 00h00

Aqui na Avenida Presidente Masarik há butiques de roupas de luxo dos dois lados da calçada. Um casaco Burberry? Um terno Corneliani? Um cachecol Gucci? Podem ser seus, se tiver dinheiro bastante para comprá-los. Mas escondida numa arborizada travessa no bairro de Polanco há uma loja diferente das outras, uma loja cujo próspero ramo de atividades diz muito a respeito do precário estado da segurança no México. Na loja Miguel Caballero, que leva o nome do dono, todos os trajes em oferta são à prova de balas. Jaquetas, camisas pólo, camisas de mangas curtas, blusões, parcas e até camisas brancas de smoking com preços que vão das centenas de dólares até US$ 7 mil; tudo com blindagem testada e aprovada pelos próprios funcionários, que são obrigados a viver o papel de um cliente alvejado, pelo menos uma vez . "A sensação é a de levar um soco", contou um vendedor. Entre os fregueses da loja, há nomes como o de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Álvaro Uribe, da Colômbia, além de diversos membros de famílias reais, estrelas de cinema e outros VIPs. Embora não forneça números, a loja reconhece que as vendas crescem na mesma medida em que caem as condições de segurança no México.Aqueles que entram na butique privativa, passando primeiro por um detector de metais, são grandes manda-chuvas. São clientes como o importante cirurgião que encerra o trabalho no hospital já tarde da noite e sente-se vulnerável enquanto caminha pelo estacionamento até seu carro. Agora, o seu eventual assaltante pode disparar contra ele usando um revólver calibre 38, uma pistola 9 milímetros ou uma submetralhadora e, ainda assim, não será capaz de perfurar o seu casaco leve, resistente ao calor e no rigor da moda. Há o distribuidor de jornais cujos diversos empregados vêm buscar com ele os exemplares do dia, quando ainda é madrugada, para depositá-los diante das portas de toda a capital. Ele parou na butique outro dia para comprar um casaco capaz de mantê-lo trabalhando mesmo se alguém tentar derrubá-lo e tomar os rolos de dinheiro que carrega consigo. Há o toureiro que não teme os touros, mas sim as balas. E, conseqüentemente, encomendou um traje de "matador" capaz de resistir a armas de fogo. Além deles, há os políticos e altos executivos mexicanos, alguns dos quais receberam ameaças e outros que querem incrementar as medidas de segurança que empregam atualmente - as quais em muitos casos já incluem carros blindados, sistemas de alarme doméstico, guarda-costas 24 horas por dia e botões de emergência."O que oferecemos é uma nova chance para a vida", disse Javier Di Carlo, o diretor de marketing, enquanto exibia a coleção preta, top de linha, num vestiário particular.UMA CHANCE"Não queremos que os fregueses digam ao criminoso, ?Atire em mim?. Ninguém pode achar que é o super-homem. Mas, se o criminoso de fato disparar, nós oferecemos aos nossos clientes uma chance de escapar com vida."Têm ocorrido muitos atentados à mão armada no México atualmente. Todos os dias os jornais estão repletos de vítimas, cadáveres dispostos em poses grotescas com ferimentos à bala por todo o corpo. Algumas das ocorrências envolvem vítimas de crimes comuns, mas os cartéis do tráfico de drogas, que controlam boa parte do interior do México, estão por trás da imensa maioria dos casos.Eles subornam políticos e policiais e agem como um governo clandestino em cada uma das cidades pelas quais passa a rota do tráfico. Quando alguém cruza o caminho, eles não hesitam em puxar o gatilho. A explosão de violência relacionada às drogas, assim como um surto de seqüestros para a exigência de resgate, abalaram os mexicanos comuns. Até para pedir informações a um desconhecido nas ruas, hoje, todos têm medo.Estudos mostram que os mexicanos, ansiosos, investem cada vez mais em medidas defensivas. Famílias e empresas de todo o México investem US$ 18 bilhões em medidas de segurança particular, segundo pesquisa do Centro de Estudos Econômicos do Setor Privado.Apesar do rígido controle, algumas pessoas tentam obter armas para uso pessoal, amplamente disponíveis no mercado negro. Para alguns, o próximo passo lógico é a moda à prova de balas.

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