Rove, o guru político de Bush, pede demissão

Ele foi apelidado de ?o arquiteto? por ter planejado os passos políticos do presidente nos últimos 14 anos

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 00h00

 Washington - Karl Rove, um dos mais poderosos assessores do presidente George W. Bush, anunciou ontem que deixará o governo até o final do mês. Vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Rove foi o estrategista das duas vitórias eleitorais de Bush e era uma das figuras mais controvertidas do governo. Ele foi apelidado pelo presidente de "o arquiteto", por ter planejado os passos políticos de Bush nos últimos 14 anos, desde seu governo no Texas, e também de "turd blossom", expressão que identifica flores nascidas do esterco.  Conheça os principais escândalos envolvendo Karl Rove"Parece ser o momento certo para pensar no próximo capítulo da vida da minha família", disse Rove em entrevista coletiva no gramado da Casa Branca, com a voz embargada. "Não foi uma decisão fácil", disse, emocionado, ao lado do presidente. Bush, por sua vez, qualificou Rove de "querido amigo" e agradeceu seu "sacrifício" pela nação. "Vamos continuar amigos, estarei na estrada, um pouco atrás de você", disse Bush, que partiu acompanhado de Rove para suas duas semanas de férias na fazenda de Crawford, no Texas.Dan Bartlett, outro conselheiro que veio do Texas com Bush, renunciou em julho. Sobraram o secretário de Justiça, Alberto Gonzales, em situação bastante frágil, e Karen Hughes, subsecretária do Departamento de Estado.Em entrevista publicada ontem por The Wall Street Journal, Rove afirmou que já conversava com o presidente há um ano sobre sua saída. Mas, com a derrota nas eleições legislativas de novembro, resolveu ficar mais tempo. Ele aproveitou a entrevista para, mais uma vez, criticar a pré-candidata democrata Hillary Clinton. Segundo Rove, ela é "durona, persistente e tem falhas". Ele previu vitória republicana em 2008, a melhora na situação do Iraque e a elevação da popularidade de Bush. Rove disse que quer passar mais tempo com a família no Texas, escrever um livro sobre o governo Bush, com a bênção do presidente, e dar aulas numa universidade. Mas apesar de ter dito que não pretende envolver-se na campanha presidencial de 2008, muitos apostam que ele vai se oferecer para ajudar o indicado do Partido Republicano.Para alguns , Rove é um gênio político que criou o conservadorismo compassivo e conquistou a direita cristã, garantindo vitórias republicanas. Para os críticos, ele personifica os vícios do governo Bush, como o excessivo partidarismo e a politicagem agressiva.Rove teria parte da responsabilidade pela lavada que os republicanos levaram nas eleições legislativas e o fracasso das reformas da lei de imigração e previdência social. Também foi intimado a depor no caso das demissões dos procuradores por motivos políticos. Mas a Casa Branca alegou privilégio do Executivo para impedir que Rove depusesse.Para analistas, sua saída vai enfraquecer ainda mais os 17 meses restantes do mandato "pato manco" de Bush, mergulhado no atoleiro do Iraque e em índices de popularidade baixíssimos."Rove era um fardo para o governo Bush porque havia se tornado muito impopular", diz Costas Panagopoulos, professor de ciência política na Fordham University. "Mas sua saída é muito tardia para trazer algum dividendo político."Após o anúncio da saída de Rove, o senador democrata Patrick Leahy afirmou que a comissão não vai desistir de obter o depoimento de Rove, que "agiu como se estivesse acima da lei". Para o pré-candidato democrata à presidência Barack Obama, "Rove criou uma estratégia política que deixou o país mais dividido e excluiu o povo americano do governo como nunca antes, favorecendo grupos específicos".

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