Soe Zeya Tun/Reuters
Soe Zeya Tun/Reuters

Rubis transformam cidade de Moçambique em novo faroeste

Montepuez, com 230 mil habitantes, possui uma das principais reservas do minério no mundo

O Estado de S.Paulo

29 de março de 2017 | 04h04

MONTEPUEZ - A febre pelas pedras preciosas chegou a Montepuez, cidade que a médica Tania Mabota não hesita em qualificar como o "Faroeste de Moçambique" por conta de seus rubis e da violência que a busca pela pedra desencadeou. 

Milhares de estrangeiros vieram de todas as partes em busca de rubis em Montepuez, a mais de 1.500 quilômetros ao norte da capital, Maputo, diz Mabota, chefe do hospital local. "Como é seu único sustento, eles lutam até pela menor pedra". Ela conhece bem a guerra: seus equipamentos de urgência tratam as vítimas - que variam de 10 a 13 por mês.

"Os mineiros não hesitam em matar-se entre si", diz a administradora do distrito, Etelvina Fevereiro. Os cobiçados rubis fizeram com que milhares de mineiros informais chegassem à cidade. Com eles, muitos oportunistas que também querem aproveitar a mina. "Temos crime organizado, ataques à mão armada, tráfico de drogas", enumera Fevereiro. A criminalidade alcançou um nível tão elevado que as autoridades fizeram este ano detenções e expulsões a um nível sem precedentes. 

O destino de Montepuez mudou completamente em 2009. Até então, seus habitantes desconheciam a existência dessas pequenas pedras vermelhas formadas há 500 milhões de anos no leito dos rios. Desde então, Moçambique entrou no mapa mundial das pedras preciosas. O país "não sabia que estava assentado sobre uma jazida excepcional", se surpreende até hoje Pya Tonna, diretora de marketing da companhia Gemfields, empresa britânica que assumiu o controle da Mina de Rubis de Montepuez (MRM). 

A Gemfields possui três quartos do capital da MRM. O restante pertence a uma empresa dirigida por um ex-general membro da mais alta instância do partido no poder em Maputo. 

Somente no ano passado, cerca de 40% da produção vendida em todo o mundo vinha de Moçambique, segundo a Gemfields. As forças da polícia e uma companhia de segurança privada contratada pela direção da mina recorrem à força contra os mineiros clandestinos. E esses trabalhadores ilegais denunciam numerosos abusos por parte de uma milícia chamada "nacatanas'. 

O chefe de operações da MRM, Gopal Kumar, reconhece que a polícia e a empresa de segurança costumam trabalhar a seu favor, mas com "total legalidade". "MRM nunca apoia as atividades violentas", diz. Nas últimas semanas, mais de 3.700 mineiros ilegais foram detidos, entre eles dois terços de estrangeiros em situação irregular, segundo a polícia. / AFP

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