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Rumo chinês

Para onde vai a potência emergente mais dinâmica, consequente e potencialmente volátil do mundo? Estrangeiros, em particular do Ocidente, supunham que o crescimento chinês conduziria o país à liberalização econômica e à reforma política. Esse processo faria da China um país mais previsível, um defensor do status quo global e uma "parte interessada responsável" na política internacional.

IAN BREMMER, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2014 | 02h03

Mas já é hora de aceitar que a China terá a maior economia do mundo muito antes de se tornar um país desenvolvido. Mesmo que ela se torne mais importante para a estabilidade econômica global, a mão pesada do Estado continuará a criar problemas de longo prazo para a economia chinesa e sua política autoritária levará a riscos maiores de conturbação social.

Quando Xi Jinping fala da importância do "sonho chinês", não está dizendo que seu país adotou a aspiração americana a ter um bom emprego, entrar na classe média, comprar uma casa e ter um padrão crescente de vida.

Essas coisas têm importância na China, como têm em toda parte, mas o sonho de Xi é o apelo a um renascimento nacional. É uma afirmação de direitos nacionais e uma insistência de que os ideais do Ocidente não são universais, que a China tem seus próprios valores e seus próprios planos.

Quando Xi fala da "revolução energética" da China, ele se refere não a um crescimento da inovação tecnológica puxada pelo mercado, mas de uma renovação do setor de energia do seu país dirigida pelo Estado, destinada a proteger o monopólio do partido governante sobre o poder político, ao aplacar a ira pública chinesa com o ar e a água poluídos do país e reduzir a dependência de recursos naturais e tecnológicos estrangeiros.

O capitalismo de Estado chinês está vivo e em boa forma no momento que o governo trabalha para reformar empresas estatais em vez de privatizá-las. As sete maiores companhias estatais do mundo (por capitalização de mercado) são chinesas. No ano passado, as 10 maiores companhias chinesas em faturamento e cerca de 200 das 500 maiores eram estatais.

O crescimento dirigido pelo Estado impeliu a economia durante muitos anos, mas o impulso para se tornar um país de classe média moderno algum dia compelirá os líderes do país a depender menos das gigantes estatais e mais da engenhosidade da população cada vez mais bem educada.

A liberalização política não virá facilmente, tampouco. Veja Hong Kong, onde os cidadãos são significativamente mais ricos do que o chinês médio, onde a classe média é vibrante e o ar é relativamente limpo. Os moradores não conquistaram uma maior liberdade. A mídia local não é livre. Os cidadãos não podem votar em eleições abertas. Eles continuam sujeitos a um sistema planejado para proteger os interesses do Estado, não os direitos do indivíduo. É a lei do império, não o império da lei.

Chineses e americanos têm uma coisa em comum: líderes sempre prontos a dizer aos cidadãos que sua nação é excepcional. O sentimento de direito nacional e autossatisfação, porém, é particularmente perigoso num país em desenvolvimento com tão poucas válvulas de escape autorizadas para a ira pública e onde a fúria nacional pode ser redirecionada para conflitos com países vizinhos.

As relações com Taiwan, em particular, poderão enveredar para um curso mais duro em 2015. É por isso que, quando Xi fala do sonho chinês ou da revolução energética, ele tem muito mais em comum com Vladimir Putin do que com Barack Obama, Angela Merkel, Shinzo Abe, do Japão, Narendra Modi ou Dilma Rousseff.

Já é hora de o Ocidente finalmente aceitar que a China só liberalizará quando não tiver alternativa. Um dia, a falta de disposição dos líderes chineses de dividir poder com o povo, o fluxo sem precedente de ideias e informações dentro do país e as contradições da economia chinesa poderão se combinar para derrubar o sistema existente. Esse dia, porém, não está no horizonte. Em 2015, a economia da China terá um forte crescimento e seus líderes talentosos manterão seu monopólio do poder. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

IAN BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK

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