Hector Retamal/AFP
Hector Retamal/AFP

Rumores cercam retorno de ''Baby Doc''

Pano de fundo da maioria das teorias é a crise eleitoral, mas há também boatos de que ex-ditador voltou ao país para fugir da Justiça suíça

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Cinco dias após o fim de um longo exílio autoimposto, ainda não estão claros os motivos que levaram o ex-ditador Jean-Claude Duvalier a retornar ao Haiti. O silêncio de Baby Doc, que evitou jornalistas e não fez nenhum pronunciamento, deu lugar a todo tipo de teoria conspiratória na imprensa haitiana. O pano de fundo é quase sempre a crise eleitoral.

Segundo uma rádio comunitária, a volta do ex-ditador "só pode ser obra" do presidente René Préval, figura altamente impopular no país. Préval teria atraído Duvalier ao Haiti e, quando Baby Doc mordeu a isca, o presidente - em fim de mandato e acuado pelas graves acusações de fraude no primeiro turno - deu uma demonstração de força, levando-o a uma Corte de Justiça.

Com a manobra, explicava o apresentador, Préval teria tentado ganhar tempo e fôlego político para assegurar a presença no segundo turno de seu candidato à presidência, o tecnocrata Jude Celestin.

Outros acham que é o cantor e também candidato Michel Martelly quem está por trás da reaparição de Duvalier no Haiti. De acordo com o jornal Nouvelist, Martelly "mandou vir" Baby Doc para consolidar seu apoio entre os quadros históricos do duvalierismo, que ainda controlam parte da burocracia do Estado. O ex-ditador declararia apoio ao cantor e a aliança renderia a Martelly os votos necessários para levá-lo à eleição.

Desde que os principais países presentes no Haiti e a ONU protestaram contra os indícios de fraude no primeiro turno, o processo eleitoral haitiano caiu num complicado impasse. Sob pressão, o governo haitiano solicitou que uma comissão da Organização dos Estados Americanos (OEA) fosse formada para apurar as acusações de irregularidade. Após um mês, o grupo de investigação concluiu que o resultado divulgado pelo Comitê Eleitoral Provisório do Haiti deveria ser alterado. Martelly, que tinha ficado em terceiro lugar, entraria no segundo turno para enfrentar a líder na corrida presidencial, a ex-primeira-dama Mirlande Manigat, em detrimento do governista Celestin, que deveria ser eliminado da disputa.

Na segunda-feira, a OEA entregou o relatório à comissão haitiana, que deve se pronunciar se aceita ou não a mudança. Préval, por sua vez, deve decidir entre rejeitar o relatório e isolar-se ainda mais internacionalmente ou retirar das eleições o candidato que apoia.

No entanto, há outras explicações para a volta de Baby Doc que não passariam diretamente pela política haitiana. Duvalier, após gastar em seu exílio na França dezenas de milhões de dólares roubados dos cofres haitianos, estaria de volta para evitar ser processado em cortes europeias por causa de uma conta de US$ 6 milhões que ele tem na Suíça. No dia 1.º, entra em vigor na Basileia a "Lei Duvalier", que pode levar o ex-ditador à prisão por desvio de fundos e corrupção. No Haiti, país onde ele nunca havia sido processado, Baby Doc estaria imune à Justiça da Suíça.

Ainda outro motivo de especulação é a saúde de Duvalier. Visivelmente frágil, com dificuldades para mexer o pescoço e andar, Baby Doc teria retornado ao Haiti para morrer.

"Eu sei bem por que Baby Doc voltou: para ser nosso presidente de novo", afirma Louis Mesadieu, de 30 anos, que todo dia vai ver "como o senhor presidente está" diante do luxuoso Karibe Hotel, onde Duvalier está hospedado. Assim como os advogados de Baby Doc, Mesadieu pede a completa anulação das eleições iniciadas em 28 de novembro. A defesa do ex-ditador anunciou que ele pretende sair como candidato em uma nova votação. Mas Mesadieu discorda. "Por Duvalier não precisamos de eleições. Talvez apenas um referendo. Eleição não faz parte da cultura haitiana", explica.

PARA ENTENDER

Vítimas acusam ex-ditador de violações

O ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc, voltou no domingo ao Haiti após 25 anos de exílio. Na terça-feira, ele foi detido brevemente e indiciado por corrupção e desvio de fundos durante seu regime (1971-86). Na quarta-feira, quatro vítimas da ditadura apresentaram queixas na Justiça, acusando Baby Doc de envolvimento em graves violações dos direitos humanos. A Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos no Haiti acredita que novas queixas serão apresentadas nos próximos dias contra Duvalier, obrigando os juízes a analisar as acusações - que envolvem prisões arbitrárias, tortura, execuções sumárias e estupros. A Justiça do Haiti proibiu Baby Doc de deixar o país. Mas ele partiu ontem sorrateiramente do hotel em que estava hospedado em Porto Príncipe e seu paradeiro é desconhecido.

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