Rumores de reforma agravam a fome na Coreia do Norte

As especulações sobre reformas econômicas na Coreia do Norte estão contribuindo para a alta no preço do arroz no país, tornando o produto ainda mais inacessível para a maioria das famílias em uma das sociedades mais subnutridas do mundo.

JU-MIN PARK, Reuters

27 de julho de 2012 | 10h33

Seo Jae-pyoung, um desertor que hoje vive na Coreia do Sul, conversou nesta semana com um parente que ligou furtivamente por celular para ele, escondido na encosta de uma montanha, para implorar o envio de dinheiro.

"Ele não podia lidar com os preços altos, disse que os preços do arroz dispararam (...) e que ele está ficando sem dinheiro", disse Seo à Reuters.

"Isso mostra que a situação econômica está seriamente piorando (...). Sinto que (...) ela já atingiu um ponto crítico, e (o líder Kim Jong-un) talvez saiba que sem reformas ou abertura o regime não vai durar muito."

Seo e outras fontes dizem que o arroz ficou mais caro porque atravessadores estariam acumulando estoques, antevendo a chance de mais lucros caso as reformas se materializem.

Uma fonte ligada à Coreia do Norte e ao seu principal aliado, a China, disse na semana passada à Reuters que o isolado regime norte-coreano está se preparando para testar reformas econômicas.

Mas a impressão geral entre migrantes norte-coreanos em Seul e entre estrangeiros que estiveram na Coreia do Norte nos últimos meses é que houve poucas mudanças palpáveis desde que o jovem Kim Jong-un assumiu o poder no país comunista, depois da morte do pai, Kim Jong-il, há sete meses.

"Não escutei nada que sugerisse qualquer melhora para as pessoas comuns de lá. E em alguns setores as coisas continuam indo ladeira abaixo", disse um ativista cristão que trabalha com refugiados norte-coreanos.

O país mais isolado do mundo está sob sanções internacionais por causa dos seus programas de armas, e a política oficial do regime é priorizar as Forças Armadas em tudo, inclusive na alimentação. Insuficiências administrativas fazem com que a produção de alimentos seja muito inferior às necessidades, e há décadas a população passa fome.

Os efeitos dessa dieta longa e forçada transparecem nas chocantes imagens de norte-coreanos magérrimos, fazendo com que o rechonchudo Kim pareça ainda mais em descompasso com seus súditos.

"O que é chocantemente óbvio é o crescimento atrofiado das pessoas, elas são todas muito baixas para a sua idade", disse um agente humanitário que esteve neste ano na Coreia do Norte.

"Sempre haverá uma escassez de alimentos. O problema é que, do que eles conseguem produzir, o melhor sempre vai para os melhores (a elite norte-coreana, composta principalmente por militares)."

Segundo desertores norte-coreanos que ainda mantêm contato com parentes e amigos e também de acordo com o Daily NK, que monitora as condições no país, o preço do quilo de arroz seria equivalente a pelo menos um mês de salário das pessoas.

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