Lena Mucha/The New York Times
Lena Mucha/The New York Times

Rumos da política alemã estão nas mãos dos partidos menores; leia análise

Resultados apertados nas eleições legislativas deixam ainda mais incerta a sucessão de Angela Merkel  

Carolina Pavese*, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 22h01
Atualizado 27 de setembro de 2021 | 01h00

Os cidadãos da maior economia europeia elegeram o novo Parlamento federal (Budenstag), mas os resultados apertados deixam ainda mais incerta a sucessão de Angela Merkel

O partido com maior número de representantes no Parlamento tem a prerrogativa de indicar seu candidato a chanceler. Mas mesmo com todos os votos apurados, levará, provavelmente, meses para sabermos a composição do novo governo. Os motivos são o complexo sistema eleitoral de representação proporcional e a polarização política do país. 

Desde 1961, nenhum partido alemão obteve maioria absoluta para compor um governo sozinho. A formação de coalizões é prática necessária e recorrente. Os últimos dois governos resultaram de uma aliança conservadora entre a União Democrata-Cristã /União Social Cristã (CDU/CSU), de Merkel, e o Partido Social-Democrata (SPD). Desta vez, o cenário é diferente.

Com a polarização política, partidos menores têm conquistado parte do eleitorado e modificado o jogo eleitoral. Além dos dois majoritários, quatro outros partidos principais disputaram as eleições federais: Partido Verde, com uma agenda centrada nas questões climáticas, Partido Liberal Democrático (PDL), que representa o empresariado e profissionais liberais, A Esquerda, com agenda fortemente progressista, e o controverso Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita. 

Enquanto não forem apurados todos os votos – incluindo aqueles que chegam por correio - o resultado é incerto, mas não teremos nenhuma novidade com relação ao protagonismo do CDU/CSU e do SPD. 

Confirmando-se esse resultado, de vitória do SPD, não haverá uma mudança radical na política alemã. Olaf Scholz, candidato a chanceler do SPD, é jurista, acadêmico e político experiente e representa a ala mais conservadora do partido. Atualmente, é vice-chanceler, mas é sua atuação como ministro das Finanças que lhe rendeu maior protagonismo. 

Igualmente importante será o desempenho dos demais partidos. Como apenas o SPD e o CDU/CSU não terão representação necessária para compor um governo juntos, alianças com partidos menores serão inevitáveis. Os verdes elegeram 14,8% do Parlamento, o maior número em seus 40 anos, o que o torna peça central em qualquer coalizão. 

Na sequência, aparece o PDL, com 11,5% dos votos, AfD, com 10,3% e A Esquerda, que chegou a 4,9%. Esses dois últimos devem ficar de fora de uma coalizão de governo.

Diante da pluralidade de possibilidades, é exatamente na definição de coalizão que repousam as incertezas sobre o futuro da Alemanha. De todo modo, se há a possibilidade de construir pontes entre os diferentes partidos, suprir as lacunas deixadas por Merkel e promover os interesses da Alemanha diante do cenário internacional, Scholz está determinado a ser esse líder. A questão é quem o acompanhará. Assim, os rumos da política alemã parecem estar nas mãos dos menores partidos.

 

*É DOUTORA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS PELA LONDON SCHOOL OF ECONOMICS E PROFESSORA DA ESPM SP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.