Rumsfeld é recebido com denúncia em Paris

Donald Rumsfeld, ex- secretário americano da Defesa, está em Paris. Uma multidão o aguardava ontem com vaias e gritos de "assassino" perto do Palácio do Eliseu. Mas também o aguardava uma denúncia apresentada contra ele ao procurador do Tribunal de Grande Instância de Paris por quatro associações, entre elas a Federação Internacional das Ligas de Direitos Humanos, com sede em Paris. Pode surpreender o fato de uma ação ser impetrada na França contra um americano por fatos ocorridos no Iraque. Mas esse é um procedimento previsto na Convenção Internacional sobre a Tortura, de 1984, que a França assinou e incorporou a seu direito interno. A denúncia contra Rumsfeld refere-se a atos cometidos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, e na base americana de Guantánamo. Umas das testemunhas citadas, a americana Janis Karpinski, que comandou Abu Ghraib, declarou-se "pronta a testemunhar contra Rumsfeld". A queixa foi acompanhada de um pedido de prisão do ex-secretário.Esse tipo de processo raramente surte efeito. Assim, seria o caso de ver nesse caso mais um exemplo do antiamericanismo tantas vezes imputado à opinião pública francesa? Há dois tipos de antiamericanismo. Um é o visceral, da extrema esquerda, dos ativistas antiglobalização. O outro, mais difundido, visa diretamente o presidente George W. Bush, sua brutalidade e o simplismo de suas reações após o 11/9, sua guerra contra o Iraque, o serviço que essa guerra rendeu ao terror islâmico, a religião do petróleo. As duas correntes não têm relação: entre os que criticam o presidente americano há pessoas que admiram apaixonadamente os EUA e consideram Bush culpado, em primeiro lugar, de humilhar e perverter a imagem de seu país. Paradoxalmente, pode-se dizer que os inimigos dos EUA de Bush estão entre os que mais respeitam o país.*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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