Rumsfeld sobre o Iraque: França e Alemanha são "problemas"

Os EUA começam a dar sinais que podem partir para uma guerra contra o Iraque sem os aliados e mesmo sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. Hoje, o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, disse que a França e a Alemanha são "problemas" para as iniciativas norte-americanas contra o Iraque. Ele minimizou a importância dos dois países, que qualificou como "parte da velha Europa". Durante briefing à imprensa em Washington, Rumsfeld foi indagado sobre os motivos da falta de apoio dos tradicionais aliados europeus dos EUA ao confronto com o Iraque. Ele respondeu questionando a premissa e sustentando que boa parte da Europa está apoiando os EUA e ressalvou que "a Alemanha tem sido um problema. A França tem sido um problema".Rumsfeld preferiu destacar que o centro de gravidade daEuropa deslocou-se recentemente para o leste, à medida que osintegrantes do extinto Pacto de Varsóvia (que era liderado pelaURSS) vêm se integrando à Europa Ocidental. O secretário também contestou a noção de que há apenas um número reduzido de países que apoiariam uma ação militarcontra o Iraque. Ele acrescentou que, caso o Conselho de Segurança da ONU aprove uma nova resolução contra o Iraque, onúmero de países dispostos a apoiar uma ação militar vaiaumentar.Rumsfeld também disse que uma nova resolução da ONU nãoteria de endossar explicitamente uma ação militar. Segundo ele,bastaria que ela declarasse que o Iraque não cooperou com osinspetores de armamentos.ResponsabilidadeDiante da crescente visão antiamericana nos países aliados, o governo Bush deve tentar o discurso da responsabilidade. Bush, afirmou nesta quarta-feira que seu país vai cobrar o resto do mundo quanto às suas responsabilidades em relação à situação do Iraque. "Espero que o mundo tenha aprendido as lições do passado, assim como Saddam Hussein aprendeu as lições do passado, mas de uma maneira diferente. É tempo de nós responsabilizarmos o mundo e é tempo de Saddam ser responsabilizado", afirmou Bush durante um discurso em Saint Louis, no Estado norte-americano de Missouri.Bush voltou a dizer que espera que o confronto com o Iraque seja resolvido de maneira pacífica, mas ressalvou que o regime iraquiano não está colaborando com os inspetores de armamentosda Organização das Nações Unidas (ONU). "Nós sabemos o que quer dizer desarmamento. Sabemos o que um regime desarmado faz. Sabemos como um regime desarmado presta contas de armas de destruição em massa. Saddam Hussein não está se desarmando como o mundo mandou que ele fizesse. Ele é um homem perigoso, com armas perigosas. Ele é um perigo para os Estados Unidos e nossos amigos e aliados", disse o presidente.Bush também advertiu os militares iraquianos a não usarem armas de destruição em massa contra as tropas norte-americanas que vão invadir o Iraque. "Haverá conseqüências sérias para o ditador do Iraque e haverá conseqüências sérias para qualquer general ou soldado iraquiano que usar armas de destruição em massa contra nossas tropas ou contra vidas inocentes no Iraque. Quando o Iraque for liberado, vocês serão tratados, julgados e perseguidos como criminosos de guerra", acrescentou. O presidente referiu-se também à recente prisão de muçulmanos no Reino Unido com a toxina letal ricina. "Nossos amigos na Grã-Bretanha recentemente descobriram um grupo da Al-Qaeda que eles pensam que planejava envenenar o povo britânico", disse Bush.Ele ignorou o fato de as autoridades britânicas terem ligado os suspeitos a um grupo de extremistas da Argélia, e não à Al-Qaeda, liderada pelo milionário saudita no exílio Osama bin Laden.Antiamericanismo"Os membros do Conselho de Segurança estão se colocando do lado da França e não do lado dos EUA", advertiu Charles Kupchan, diretor para a Europa do Conselho de Segurançada Casa Branca no governo Clinton, atual membro do Council ofForeign Relations e professor de Relações Internacionais naUniversidade de Georgetown, em Washington. "A opinião pública mundial está dizendo que quer ver mais provas de que Saddam Hussein possui armas de destruição em massae mesmo os norte-americanos estão dizendo que o presidente Bush ainda não justificou uma ação militar", acrescentou Kupchan, falando no programa NewsHour, da rede PBS."Creio que se os EUA forem por esse caminho, sem apoio amploda ONU, estaremos essencialmente dizendo que nos colocamos acima da lei e veremos uma erosão do sentido de multilateralismo, de interesses compartilhados, que uniu o Ocidente nas últimas décadas."Kupchan notou que a percepção internacional sobre o comportamento dos EUA no Iraque não é algo isolado, mas está relacionada com várias outras decisões unilaterais da administração Bush, como o repúdio ao Protocolo de Kyoto sobremudanças climáticas, ao Tribunal Internacional Penal e aoTratado sobre Mísseis Antibalísticos. "Em cada uma dessas decisões, os EUA distanciaram-se de compromissos multilaterais", disse ele. "Há um forte sentimento no exterior, e não apenas na França, de que os EUA simplesmente não são mais um jogador que joga em equipe; há um crescimento significativo de sentimentos antiamericanos e as pessoas estão começando a questionar as intenções dos EUA e como seu governo usará seu poder nos anos à frente."Para o especialista, os norte-americanos que apóiam a estratégia de Bush iludem-se se crêem que não há custos associados a uma ação isolada dos EUA contra o Iraque, sem um mandato da ONU.Ele acredita que se a administração apresentar as provascontra o Iraque que a maioria dos norte-americanos e a opiniãopública mundial pedem, ou se der o tempo necessário para que osinspetores as produzam, o Conselho de Segruança apoiará uma ação militar contra o Iraque. "Mas na ausência desse tipo de prova, creio que os EUA precisam tomar muito cuidado para não perder sua legitimidade internacional."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.