Ruptura abriria espaço para novos nomes na Itália

No seu 20.º ano no cenário político italiano, Silvio Berlusconi finalmente foi condenado por fraude fiscal. Berlusconi fez vista grossa ou mesmo consentiu com a evasão fiscal durante toda sua vida política. Afirmava que ninguém devia pagar mais de um terço da sua renda em impostos, mesmo quando o governo que comandava taxou o contribuinte em até 50%. Pagou fortunas para os mais caros advogados para adiar, confundir e deixar caducar prazos em todos os processos contra ele.

ANÁLISE: John Lloyd / Reuters, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h02

Este é o homem condenado por uma enorme fraude. Num país em que a sonegação é praticada das camadas mais baixas até as mais altas da sociedade, o seu julgamento é ainda mais importante do que as repercussões que terá por todo o sistema político do país. O que essa condenação significará para a coalizão de governo, em que metade dos membros apoiou a recente criação de Berlusconi, o partido Povo da Liberdade?

Apesar de um início nada promissor, reunindo dois partidos em que muitos membros se odiavam e liderado por um político moderado, que era o número 2 na hierarquia do Partido Democrático, de centro-esquerda, esse governo deu sinais de determinação. O premiê Enrico Letta, que comanda a coalizão, pode ser discreto, mas tem a vantagem de ser uma surpresa numa cultura política que tende a privilegiar a ostentação do poder.

Ele declarou que pretende realizar grandes privatizações, reduzir o poder do Senado, atualmente com o mesmo número de membros da Câmara dos Deputados, provocando frequentes obstruções de pauta, e mudar a lei eleitoral que privilegia partidos minúsculos, incentivando divisões nas agremiações maiores.

Para Berlusconi, a sentença não será tão dura. A condenação inicial, de 4 anos de prisão, foi reduzida a um ano por razões técnicas. Apesar de ele ter declarado que está pronto para viver na prisão, é improvável que ouçamos a porta da cela se fechando atrás dele. Criminosos com mais de 70 anos raramente vão para a prisão na Itália, salvo se forem considerados muito perigosos. E, mais importante, o tópico da sentença estabelecendo que Berlusconi não pode participar da vida pública durante 5 anos também será revisto e o prazo deverá ser reduzido. É provável, porém, que a condenação custe sua cadeira no Senado.

Um coringa no jogo político é Matteo Renzi, de 38 anos, prefeito de Florença, que reivindica a liderança do Partido Democrático e apresenta-se como um novo Tony Blair. Ele veio da esquerda para o centro com um misto de liberalismo, patriotismo, juventude e despreza a velha guarda que, segundo ele, deve dar espaço para os italianos entre 20 e 40 anos. Ele não seria totalmente contra o colapso do governo Letta, uma vez que isso lhe permitiria reivindicar a liderança nacional.

E poderá ter sucesso. Berlusconi lançou todos os seus sucessores, exceto sua filha Marina, no esquecimento. Uma disputa entre Renzi e a herdeira de Berlusconi, de 47 anos, mas muito jovem, segundo critérios políticos locais, abriria um novo capítulo na vida política do país.

O que não pode ser evitado é a decisão final do tribunal: Silvio Berlusconi, três vezes premiê da Itália, foi condenado por fraudar o Estado que dirigiu. Não importa o que virá, o fato é que as coisas na Itália já mudaram. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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