Ruralistas preparam locaute contra Cristina

Produtores rurais farão paralisação amanhã em protesto contra decisão do governo argentino de expropriar imóvel que é sede da Sociedade Rural

MARINA GUIMARÃES , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h02

Antes de encerrar o ano, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, abriu um novo conflito com os produtores rurais de seu país. A Sociedade Rural Argentina (SRA) confirmou que os pecuaristas vão fazer um locaute de 24 horas amanhã, para protestar contra decreto presidencial que expropriou o tradicional edifício de exposições La Rural, em Buenos Aires. O decreto pegou os produtores de surpresa na véspera do fim de semana.

"Vamos paralisar a comercialização em reação não só aos ataques reiterados do governo contra o campo, especialmente contra a tentativa de confisco da Sociedade Rural", explicou ao Estado o presidente da SRA, Luis Miguel Etchevehere. Segundo ele, o locaute é também contra a decisão oficial de impedir a Federação Agrária (FAA) de emitir um certificado (chamado de 1116), que facilitava a comercialização de grãos entre os associados. A FAA agrupa os médios e pequenos produtores.

O certificado em questão desburocratizava o processo de comercialização e era vendido pela FAA aos seus sócios. Esse é o segundo documento que o governo tira das mãos da FAA. O primeiro foi a chamada "carta de portabilidade", sem a qual nenhum caminhão pode circular com alimentos produzidos pelo país. Ambos os papéis, que passam a ser emitidos eletronicamente pelo governo, provocam perdas de fluxo de recursos para a instituição e complicam seu financiamento.

"O governo nos persegue e quer nos deixar sem financiamento para nos asfixiar", reclamou Eduardo Buzzi, presidente da FAA. Segundo ele, o campo é parte de uma solução para a Argentina e não parte de um problema. "Temos um governo revanchista, que não termina de digerir a derrota que foi a Resolução 125", disse ele em referência à medida oficial que pretendia impor alíquotas móveis de exportações agrícolas, em 2008 e foi derrubada pelo Congresso, em resposta à mobilização dos produtores.

Desde 1875, os ruralistas argentinos realizam sua exposição anual e usam as instalações do edifício La Rural, no bairro portenho de Palermo. Em 1991, durante o governo de Carlos Menem (1989-1999), a instituição comprou o edifício. Mas o decreto de Cristina Kirchner anulou essa venda e o estatizou. Para a SRA, a manobra foi "mais um ataque à produção rural para tapar os gravíssimos casos de corrupção e de gestão na economia". Segundo ele, a atitude oficial é "de represálias porque o setor é independente e não se ajoelha para o governo como outros setores".

Etchevehere confirmou que a instituição vai apelar à Justiça para anular o decreto. La Rural é controlada pela SRA com 50% das ações. Os outros 50% são divididos em partes iguais entre Fénix Entertainment Group e IRSA.

Na quinta-feira, as quatro principais instituições representativas do setor agrário da Argentina, incluindo a SRA e a FAA, junto com a Confederação de Cooperativas (Coninagro) e Confederações Rurais (CRA), fizeram um apelo ao governo para que abra uma instância de diálogo com vistas a resolver os problemas que afetam a produção, como perdas nas safras de milho e trigo por causa do excesso de chuvas. As quatro associações denominadas Comissão de Enlace vão aderir ao locaute.

Etchevehere fez uma advertência ao governo: "Não queremos prejudicar o consumidor e, por isso, a paralisação será de apenas um dia. Mas alertamos que haverá uma intensa mobilização do campo em 2013".

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