Russa diz ter sido envenenada

Advogada que representa rivais do Kremlin passa mal antes de audiência

AP, AFP E NYT, O Estadao de S.Paulo

16 de outubro de 2008 | 00h00

A advogada russa Karinna Moskalenko, que defende diversos adversários do Kremlin, denunciou ontem que ela e sua família foram envenenadas por mercúrio. Ela informou que desde domingo está sentindo dores de cabeça, vertigens e náuseas. A polícia da cidade francesa de Estrasburgo, onde Karinna mora, confirmou ter encontrado no carro da família traços de mercúrio e abriu investigação.Como estava se sentindo mal, Karinna não viajou para Moscou para participar da primeira audiência do julgamento dos três suspeitos de assassinar a jornalista russa Anna Politkovskaya, morta a tiros em 2006 após sobreviver a um envenenamento anos antes. Anna fez reportagens sobre abusos cometidos pelo governo russo, especialmente na Chechênia, que incomodaram o Kremlin. O juiz recusou-se a adiar o início dos trabalhos, mas marcou a próxima audiência apenas para o dia 17 de novembro.Karinna, advogada especialista em direitos humanos de destaque na Rússia, além de representar a família da jornalista Anna, defende presos chechenos, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, detido no ano passado durante um protesto contra o governo russo, e o magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, atualmente preso por evasão fiscal.A advogada disse que o ato parece uma tentativa de intimidá-la, mas preferiu não apontar suspeitos. "Alguém pôs a substância lá, mas não sei quem pode ter feito isso, nem quais suas razões", disse. "Com certeza ninguém põe mercúrio no seu carro para melhorar sua saúde." DIAGNÓSTICOA contaminação por mercúrio pode causar danos a vários órgãos e ao sistemas imunológico e nervoso. Karinna informou que ela e seus três filhos, que apresentavam sintomas semelhantes aos seus, procuraram um hospital. O diagnóstico preliminar teria sido envenenamento. "Estou preocupada com meus filhos. Graças a Deus ainda estão vivos", disse a advogada.A polícia investiga como a substância foi parar dentro do carro, já que não havia sinais de arrombamento. Segundo um agente que falou em condição de anonimato, estuda-se a hipótese de a presença de mercúrio ter sido resultado de um acidente do antigo dono do veículo. Uma análise toxicológica feita no material recolhido indica que o tipo de mercúrio não é muito potente e não deve provocar danos mais sérios à saúde dos contaminados. Para Karinna, a possibilidade de o mercúrio estar previamente no carro "não faz sentido" porque o carro foi totalmente limpo antes de ser entregue à sua família, em agosto.Seus colegas também descartam a hipótese de envenenamento acidental. "Todo mundo acredita que o incidente tem ligação com sua atividade profissional, pois ela está envolvida em vários casos importantes", afirmou Anna Stavitskaya, que também representa a família da jornalista assassinada. Outras figuras proeminentes que criticaram o Kremlin, incluindo o ex-espião Alexander Litvinenko, foram vítimas de envenenamentos nos últimos anos. Anna ficou seriamente doente em 2004 depois de tomar um chá servido em um vôo de Moscou para Beslan. Como passou mal, não pôde cobrir a crise dos reféns numa escola que acabou com mais de 330 mortos.

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