AFP PHOTO / Olga MALTSEVA
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Russa nascida no ano da Revolução de Outubro recorda 100 anos de história

Maria Ryabtseva tinha três meses quando o movimento bolchevique liderado por Lenin assumiu o controle de Petrogrado (hoje São Petersburgo), redesenhando as estruturas de poder em seu país; ela acredita que teria tido a mesma vida, com ou sem a revolução

O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 12h36

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA - A russa Maria Ryabtseva tinha apenas três meses de idade quando a Revolução de Outubro de 1917 mudou as estruturas de seu país e, 100 anos depois, é testemunha de um século de acontecimentos excepcionais, do nascimento da União Soviética (URSS) até a chegada de Vladimir Putin ao poder.

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Maria, nascida em 14 de junho de 1917 ao norte de Moscou, diz com um sorriso que era muito jovem para se lembrar do início da Revolução. "Minhas primeiras lembranças remontam aos anos de 1920", esclarece.

Em um século de vida, ela viveu três guerras. Nasceu no final da 1ª Guerra. Sobreviveu depois à guerra entre o Exército Vermelho e o Exército Branco, formado por ex-czaristas e opositores, e, mais tarde, à 2ª Guerra, que tirou dela dois de seus filhos.

Ela também foi testemunha da coletivização das terras agrícolas, nos anos 20, dos expurgos nos anos 30, assim como da Perestroika, que antecedeu o fim da URSS em 1991.

Sua maior lembrança, contudo, é a de "ter trabalhado toda a sua vida". "Trabalhei desde muito jovem", diz ela, que já foi camponesa, enfermeira e operária. "Nossa família conta com cinco filhos, éramos camponeses normais", recorda.

"Desapropriaram nossos dois cavalos e uma vaca para os kolkhoses (fazendas coletivas). O que poderíamos fazer? Nos integramos a um kolkhoz", comentou.

Durante a 2ª Guerra, na qual morreram mais de 20 milhões de soviéticos, Maria Ryabtseva trabalhou como enfermeira no hospital de Rostov-Iaroslavki, 200 km ao norte de Moscou.

"Era duro, não havia muita coisa para comer (...) Era necessário trabalhar muito, havia tantos soldados feridos, as camas estavam cheias", lamenta. "Mas como ficamos felizes no dia da vitória! Como todo mundo, eu dançava e cantava", exclama, com os olhos brilhando de alegria pela recordação. 

'É preciso viver'

Da morte de Stalin, em março de 1953, Maria lembra pouco. "Não foi uma catástrofe", diz. "Mas todo mundo ficou triste", acrescenta. 

Algo que marcou a memória dessa senhora de humor intacto foi a mudança, em 1961, para um apartamento de dois cômodos no leste de Leningrado (São Petersburgo, ex-capital imperial da Rússia).

"Isso era a verdadeira felicidade: água quente, calefação central. Com que outra coisa se poderia sonhar?", pergunta.

Para ela, que na década que sucedeu a 2ª Guerra teve que viver com sua família em um barraco precário que se tornava glacial no inverno, a nova moradia era o verdadeiro paraíso.

Os tempos também foram difíceis na Perestroika, precedente à queda da URSS. "Não mudou a minha vida, mas se tornou mais dura do que antes". Já a chegada de Vladimir Putin ao poder no final de 1999 melhorou consideravelmente a vida cotidiana desta senhora, viúva há mais de 40 anos.

Maria Ryabtseva divide seu apartamento com a família de um de seus netos. Ela, que diz não interessar por política, garante que não tem a intenção de festejar o centenário da Revolução de Outubro, que acontece em 25 de outubro (pelo calendário juliano) e 7 de novembro (calendário gregoriano, o atual utilizado pelo país).

"Acho que eu teria tido a mesma vida, com ou sem revolução. De qualquer maneira, nada se pode mudar". "Se fui feliz? Não sei. Eu vivia. Quando se nasce, é preciso viver. Não é assim? Sobretudo porque a vida passa muito rápido", conclui, sorrindo. / AFP

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