Rússia ameaça atacar Geórgia usando argumentos dos EUA

Jogador de pingue-pongue, campeão de xadrezou excelente judoca? O que é certo que o presidente russo,Vladimir Putin, tem reflexos rápidos, e até fulminantes. Mal opresidente americano George W. Bush acabava de ameaçar o Iraquediante da ONU, e já Putin avisava oficialmente osecretário-geral da ONU de que a Rússia poderia atacar aGeórgia. A Geórgia é denunciada por Putin como Estado terrorista.Estranho ... Como o Iraque? Putin explicou que a Geórgia servede "santuário" aos rebeldes da Chechênia, que estão em guerrahá muito tempo contra Moscou. E acrescentou um argumentodelicioso às narinas americanas: "A Geórgia abriga algunsdaqueles que estão envolvidos nos atentados de 11 de setembro emNova York". A manobra é sutil e grosseira ao mesmo tempo. De fato, é muitoclaro que Putin, diante da possível guerra dos EUA contra oIraque, saltou com a velocidade de um tigre para aniquilar aGeórgia, em nome dos mesmos princípios que justificam aintervenção americana em Bagdá: a inevitável luta contra oterrorismo. É preciso explicar um pouco a situação dessa região caucasianada antiga URSS: as relações entre a Rússia e a Geórgia (antigarepública da URSS que se tornou independente), ficaram maistensas a partir de 1999 quando se iniciou a segunda guerra daChechênia. Moscou acusa então Tibilisi, a capital da Geórgia, de terdeixado os rebeldes chechenos penetrar nas gargantas de Pankissi na fronteira com a Chechênia. No mês de fevereiro passado, foiWashington que assegurou que os guerrilheiros da Al-Qaeda haviamse refugiado nesses desfiladeiros. E é de fato verdade que algumas centenas de refugiadoschechenos se instalaram nas gargantas de Pankissi, mas essaregião é "quase-autônoma". Ela sempre foi povoada pornumerosos chechenos (meio traficantes, meio bandidos). Mas, atéagora, não foi fornecida nenhuma prova formal da presença debandos de "terroristas" chechenos. O que complica a situação é que os Estados Unidos aproveitaramda instabilidade da Geórgia para introduzir-se há alguns mesesno antigo espaço soviético. Enviaram para a Geórgia 200instrutores para formar um exército nacional. E Moscou nãogostou dessa intrusão dos Estados Unidos em pleno coração de suaárea de influência. O cenário é portanto o seguinte: o presidente da Geórgia é ointeligente e astuto Eduard Shevardnadze (o antigo eefervescente ministro das Relações Exterior da URSS, durante ogoverno Gorbatchev). Putin não gosta nem um pouco de Shevardnadze. Já George W.Bush, ao contrário, o aprecia, evidentemente menos por razõessentimentais que geo-estratégicas, petrolíferas ou"oleodutescas". Portanto, se Putin aproveitou o aviso feito ao Iraque paraadministrar algumas bofetadas na Geórgia, não é absolutamentepara auxiliar os americanos em sua cruzada contra o terror. Éporque o Kremlin considera que os Estados Unidos "já têm tantotrabalho com o Iraque que não vão correr em socorro de seuprotegido Shevardnadze. Portanto, apesar de ocupado com a crise com o Iraque,Washington não gostou da decisão russa de atacar a Geórgia:"Nós nos opomos a qualquer ação unilateral da Rússia naGeórgia", declarou Julie Reside, porta-voz do Departamento deEstado. Pensamos que os problemas dos desfiladeiros de Pankissidevem ser resolvidos pelo governo da Geórgia e é o que ele estáfazendo. Apoiamos os esforços contínuos desenvolvidos pelaGeórgia para fazer com que os rebeldes chechenos deixem oterritório". Como não aprovar os dirigentes americanos? Como nãoadmirá-los? Como não reconhecer a sabedoria dessa grande naçãoque prefere resolver os problemas da Geórgia pela negociação, emvez de recorrer à guerra?

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