AFP PHOTO/Karam Al-Masri
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Rússia anuncia suspensão de ataques aéreos contra Alepo

Medida assegura retirada de milhares de civis presos em meio à violência na região; seis países ocidentais já haviam pedido um ‘cessar-fogo imediato’

O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2016 | 09h06

ALEPO, SÍRIA - A Rússia, aliada do governo do presidente sírio Bashar Assad, anunciou na quinta-feira a suspensão dos ataques aéreos e disparos de artilharia do Exército do país contra os bairros de Alepo. A medida assegura a retirada de milhares de civis presos em meio a violência.

"Posso lhes dizer que hoje as operações de combate do Exército sírio foram interrompidas no leste de Alepo, porque há uma grande operação em curso para o deslocamento de civis", declarou em Hamburgo o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, em paralelo à reunião da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) na Alemanha, citado pelas agências de notícias russas.

"Haverá uma coluna de deslocamento de oito mil pessoas, cujo itinerário é de quilômetros", detalhou Lavrov. Questionado por jornalistas, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, considerou que a notícia é "indicativa de que algo positivo pode acontecer". Lavrov anunciou ainda que no sábado serão celebrados diálogos militares e diplomáticos entre a Rússia e os EUA, em Genebra, "para terminar o trabalho (...) e definir os meios de resolução dos problemas do leste de Alepo".

Nas conversas serão estudados os planos de deslocamento de combatentes rebeldes e dos civis que os apoiam, segundo o chefe da diplomacia russa. Lavrov e seu coelga americano, John Kerry, se reuniram brevemente na quinta-feira à margem da reunião de Hamburgo, mas uma autoridade americana destacou que não houve "avanços ou conclusões sobre Alepo".

Os dois já haviam se reunido na véspera em Hamburgo, sem conseguir nenhum avanço real sobre um projeto para a cessação dos combates e o deslocamento de civis de Alepo, onde os rebeldes estão prestes a perder seus últimos redutos diante do avanço das tropas do regime sírio, apoiadas por Irã e Rússia.

O anúncio de Lavrov ocorreu um dia depois de seis países ocidentais, inclusive os EUA, pedirem na quarta-feira um "cessar-fogo imediato" diante da "catástrofe humanitária" e solicitarem à Rússia e ao Irã que aproveitem sua influência sobre o regime de Assad para consegui-lo.

Após o anúncio surpresa de Moscou, que não foi comentado pelo governo sírio em Damasco, o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) registrou um cessar-fogo dos ataques da aviação síria e uma diminuição dos disparos de artilharia nos últimos setores onde os rebeldes estão escondidos. "Está mais calmo. Inclusive os disparos de armas ligeiras diminuíram, o que não havia acontecido até agora", confirmou um jornalista local.

Um responsável do grupo rebelde Nuredin al-Zinki, Yasser Youssef, expressou suas dúvidas sobre o anúncio russo. "Não se pode considerar essa declaração como séria, a não ser em caso de haver medidas concretas garantidas pela ONU", disse.

Fortalecido pelo avanço das tropas nos bairros rebeldes do leste de Alepo, Assad rejeitou até agora os chamados para um cessar-fogo, tentando controlar de todas as formas essa segunda cidade mais importante do país.

Os rebeldes estão entrincheirados em alguns setores do sul de Alepo com milhares de civis presos, enquanto o Exército, apoiado por combatentes iranianos e do Hezbollah libanês, controla agora mais de 85% da parte que os insurgentes conquistaram em 2012, segundo o OSDH.

Pedido. Os Capacetes Brancos, socorristas que operam nas partes rebeldes do leste de Alepo, lançaram um apelo desesperado às organizações internacionais para que os protejam permitindo que os civis façam uma passagem segura. "Se não forem retirados, nossos voluntários podem sofrer torturas ou execuções nas prisões do regime", acrescentaram os membros do grupo, dirigindo-se ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha, à ONU e ao Conselho de Segurança.

A intensidade dos combates aumentou o êxodo da população e 80 mil pessoas fugiram do leste de Alepo desde o dia 15 de novembro, segundo o OSDH. A reconquista da cidade seria, para o governo, sua vitória mais importante desde o início da guerra em 2011. / AFP

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