Rússia condena roqueiras que cantaram contra Putin em igreja a 2 anos de prisão

As três integrantes da banda punk Pussy Riot foram condenadas ontem a 2 anos de prisão por "vandalismo" cometido durante um protesto contra o presidente Vladimir Putin no altar da principal catedral ortodoxa de Moscou, em fevereiro. Fãs da banda consideraram a sentença uma vingança pessoal de Putin e opositores afirmaram que o caso é emblemático por expor a intolerância do Kremlin com os dissidentes no país.

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h04

No dia 21 de fevereiro, Maria Alyokhina, de 24 anos, Nadezhda Tolokonnikova, de 22, e Yekaterina Samutsevich, de 29, entraram na Catedral Ortodoxa de Cristo Salvador, em Moscou, subiram no altar e pediram à Virgem Maria que "derrubasse Putin". As roqueiras foram detidas, indiciadas, impedidas de aguardar o julgamento em liberdade e proibidas de receber visitas de familiares e amigos.

Seis meses após a prisão, veio a sentença. A pena máxima era de sete anos de prisão, a procuradoria pediu três anos e a juíza Marina Syrova optou por dois anos de cadeia. Do lado de fora do tribunal, a polícia teve trabalho para conter 2 mil pessoas que misturava fãs da banda, líderes opositores e religiosos que pediam uma punição severa para as três.

Testemunhas disseram que pelo menos 24 manifestantes foram detidos. Entre os presos estavam dois conhecidos opositores de Putin: o ex-campeão de xadrez, Gary Kasparov, e Sergei Udaltsov.

Ao longo da semana, as integrantes da banda receberam a solidariedade de várias celebridades internacionais. Pete Townshend, do grupo The Who, e os integrantes do Red Hot Chili Peppers escreveram uma carta publicada no jornal londrino Times que pedia a libertação das russas.

A cantora Madonna também protestou, usando uma balaclava e uma camiseta da banda russa em seu show em Moscou, na semana passada. A islandesa Björk dedicou a música Declare Independence às três russas durante concerto no fim de semana em Helsinque, na Finlândia.

Pelo Twitter, Yoko Ono, viúva do ex-Beatle John Lennon, pediu que Putin libertasse as garotas. A artista canadense de electro-punk Peaches foi mais longe e postou na internet um vídeo sugerindo que o presidente russo seja linchado.

Na quinta-feira, Paul McCartney enviou uma carta às agências de notícias russas. "Escrevo para demonstrar meu apoio a vocês nesse momento difícil", escreveu o ex-beatle. "Espero que vocês permaneçam fortes e saibam que eu e muitos outros como eu acreditamos na liberdade de expressão e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiá-las."

Na Rússia, pesquisas mostram que poucas pessoas simpatizam com a banda punk. Uma sondagem do instituto Levada mostrou que apenas 6% dos russos simpatizam com elas, 51% disseram sentir irritação ou hostilidade e os demais eram indiferentes.

Ao proferir a sentença, a juíza Marina Syrova declarou as três culpadas de "vandalismo motivado por ódio religioso", descrevendo-as como "blasfemadoras" que deliberadamente ofenderam os russos ortodoxos ao invadir a principal catedral de Moscou para cantar uma música ridicularizando Putin.

"Tolokonnikova, Alyokhina e Samutsevich cometeram um ato de vandalismo, uma grosseira violação da ordem pública, mostrando evidente falta de respeito pela sociedade", disse a juíza. "As ações das garotas foram um sacrilégio, uma blasfêmia e violaram as regras da Igreja."

As roqueiras ouviram a sentença algemadas, dentro de uma cela de vidro no tribunal. Elas afirmaram que queriam protestar contra o apoio da Igreja Ortodoxa a Putin quando invadiram a catedral usando máscaras, meias coloridas e saias curtas, mas que não queriam ofender os fiéis.

As três permaneceram calmas e esboçaram um sorriso irônico quando a juíza proferiu a sentença. Como estão presas desde o fim de fevereiro, teriam de cumprir outros 19 meses e poderiam ser soltas com um perdão presidencial. A defesa disse que pretende recorrer, embora esteja pessimista sobre uma reversão da sentença. "O que elas jamais farão é pedir o perdão de Putin", disse o advogado Mark Feygin. "Elas não se humilharão diante de um cretino."

Repressão. A Anistia Internacional criticou a sentença. O presidente dos EUA, Barack Obama, se disse "decepcionado" com a punição, considerada severa demais pela Casa Branca.

Os opositores de Putin consideram o julgamento e a sentença como parte de uma campanha mais ampla do presidente, ex-agente da KGB, para silenciar o movimento de protesto contra ele. "Como na maioria dos casos politicamente motivados, esse tribunal não está em conformidade com a lei, com senso comum ou com a misericórdia", disse a veterana defensora dos direitos humanos Lyudmila Alexeyeva.

O julgamento dividiu a sociedade russa, profundamente ortodoxa. Muitos apoiaram as exigências das autoridades para que houvesse uma punição severa, mas outros disseram que as mulheres mereciam clemência.

Putin, que retornou à presidência para um terceiro mandato em maio, após um período de quatro anos como premiê, dissera que as mulheres não tinham feito "nada de bom", mas que também não deveriam ser julgadas com demasiada severidade.

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