Rússia convoca vice-presidente sírio para reunião em Moscou

Ocidente critica proposta de resolução russa sobre a Síria na ONU; texto é 'brando' e divide a culpa pela violência no país

NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h01

Um dia após a Rússia apresentar ao Conselho de Segurança uma proposta de resolução sobre a Síria, o Kremlin convidou ontem o vice-presidente sírio, Faruk al-Shareh, para "uma conversa séria" em Moscou. Os detalhes do encontro não foram revelados, mas vários negociadores ocidentais e analistas desconfiam da mudança de posição do governo russo.

Vitaly Churkin, representante da Rússia na ONU, não revelou o conteúdo exato do texto, mas diplomatas que leram a proposta disseram que ela condena significativamente tanto o governo de Bashar Assad quanto os grupos de oposição, em uma clara divisão da culpa pelo banho de sangue no país.

Ontem, a França rejeitou a proposta russa. Bernard Valero, porta-voz da chancelaria francesa, elogiou o fato de Moscou buscar a ONU para interromper a violência na Síria, mas, segundo ele, a linguagem da resolução é muito branda.

"É muito positivo que a Rússia reconheça que a deterioração da situação na Síria mereça uma resolução do Conselho de Segurança", disse Valero. "O que é inaceitável para a França, porém, é colocar a repressão do regime sírio no mesmo patamar da resistência popular."

Em conversa pela internet com leitores do jornal Le Monde, o embaixador francês na ONU, Gérard Araud, foi ainda mais duro e qualificou a resolução russa de "desequilibrada" e "oca".

Em Washington, a reação foi parecida. Os EUA indicaram que trabalharão com base no projeto russo, mesmo reconhecendo que ele contenha "elementos que não podem ser apoiados", como a "paridade entre a força da polícia e da oposição".

Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, também lamentou a divisão de responsabilidade entre governo e dissidentes. "Pelo menos eles reconhecem que a questão deve ser levada ao Conselho de Segurança", afirmou.

O secretário de Defesa, Leon Panetta, não comentou os pontos conflituosos da proposta e apenas elogiou a ação do Kremlin. "É um passo importante que a Rússia demonstre vontade de trabalhar na ONU para colocar mais pressão sobre a Síria."

Violência. Há meses os países ocidentais tentam conseguir a aprovação de uma resolução contra Damasco, mas enfrentam o veto de Moscou, de Pequim e de vários países emergentes, como Brasil, África do Sul e Índia - que ainda não se manifestaram oficialmente sobre a nova proposta russa.

Ontem, vários analistas disseram que Moscou pode até ter mudado de estratégia, mas a política russa com relação à Síria continua a mesma. "A posição da Rússia sobre a Síria não mudou. O governo continua achando que não é necessário derrubar Assad, já que as coisas ficariam piores sem ele", disse Alexei Malashenko, analista do Carnegie Moscow Centre.

Viktor Kremenyuk, da Academia de Ciências Russa, também minimizou a importância da proposta. "Não é exatamente uma mudança de posição, mas um sinal de grande senso de responsabilidade por parte da Rússia", disse.

Esta semana, o chanceler russo, Sergei Lavrov, já havia descartado qualquer sanção contra a Síria. Segundo ele, com "raras exceções, elas nunca funcionam". Lavrov também disse que condenar apenas um lado pela violência síria causaria uma "repetição do cenário líbio".

Ativistas opositores disseram ontem que forças do governo sírio mataram 13 pessoas durante protestos contra Assad. A maioria das mortes ocorreu nas cidades de Deir al-Zour e Homs, onde os dissidentes organizaram uma marcha com 200 mil pessoas - um dos maiores protestos das últimas semanas.

Terrorismo. A mídia estatal síria, no entanto, garantiu que ninguém morreu ou ficou ferido nos protestos de ontem, mas citou ataques de "grupos armados terroristas" contra forças de segurança. A Síria proibiu o trabalho de grande parte da imprensa independente, o que dificulta a apuração dos fatos. / REUTERS, NYT, AFP e AP.

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