Rússia cria programa para repatriar emigrantes

Déficit populacional leva governo a oferecer moradia em regiões remotas a descendentes de russos que fugiram na época da URSS

Clifford J. Levy, The New York Times, VLADIVOSTOK, RÚSSIA, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Até há poucos meses, Vasily Reutov nunca tinha posto os pés na Rússia, mas quando o fez, soube que finalmente estava em casa. Seus ancestrais, membros de uma seita ascética da igreja ortodoxa russa conhecida como "Antigos Fiéis", fugiram desta região na década de 20 depois da violenta perseguição religiosa do Partido Comunista soviético. A família se assentou em vilarejos espalhados por países da América do Sul, que foram transformados por eles em pequenas Rússias, como se por meio da preservação dos costumes do passado eles pudessem um dia voltar a suas origens. Agora, com a Rússia os chamando e demonstrando maior força do que antes, é chegada a hora do retorno. A volta está ocorrendo por iniciativa de Moscou, que está tentando reverter o forte declínio populacional do país atraindo os russos que moram no exterior, bem como seus descendentes. A ONU estima que a Rússia terá 116 milhões de habitantes em 2050, bem menos do que os 141 milhões atuais, o que representa uma queda de 18%.O Kremlin gastou US$ 300 milhões nos últimos dois anos para dar início ao programa de repatriamento. Os candidatos precisam falar russo e se sentir à vontade na cultura do país. Autoridades estimam que 25 milhões de pessoas podem se candidatar a participar, muitas delas de etnia russa e habitantes de ex-repúblicas soviéticas. Até agora, porém, apenas 10.300 pessoas se mudaram para a Rússia por meio do programa, que oferece moradia e emprego, mas enfrentou críticas por ser excessivamente burocrático e pouco atraente. Por isso, Moscou está enviando emissários a vários países do mundo para divulgar a iniciativa. Um deles foi até o Brasil no mês passado para se reunir com os residentes de países vizinhos que, como Reutov, são Antigos Fiéis, que adotam um estilo de vida semelhante ao dos amishes. Reutov, de 36 anos, e dezenas de membros de sua comunidade religiosa no Uruguai estão entre os exemplos dessa política de migração. Eles decidiram abandonar aquilo que construíram no exterior e recomeçar a vida onde tudo teve início - na região de Vladivostok, área costeira castigada pelos ventos no extremo oriente russo.PROSPERIDADEA história dos Antigos Fiéis é um dos últimos capítulos inacabados da Revolução Russa e diz muito sobre as mudanças pelas quais o país passou na era pós-soviética. Mesmo com a crise financeira mundial, a Rússia se encontra em um estado de prosperidade e estabilidade inédito na sua história.Reutov disse que somente agora a sua comunidade estava demonstrando confiança no futuro da Rússia. "Sempre sentimos como se a Rússia fosse o nosso lugar", disse. Ainda não está claro como a crise financeira afetará a capacidade do programa de atrair candidatos. Apesar de a Rússia ter sido duramente atingida, muitos de seus países vizinhos estão em situação ainda pior. Por outro lado, alguns podem se sentir desestimulados pela dificuldade de encontrar emprego, especialmente no remoto extremo oriente, bastante prejudicado pela crise. Vladimir Pozdorovkin, supervisor do programa, visitou diversos países no último ano para promovê-lo. Na reunião realizada no Brasil, ele disse que os Antigos Fiéis fizeram muitas perguntas sobre a qualidade de vida e o ambiente econômico russos. Enquanto isso, depois de semanas vagando pela região de Vladivostok, Reutov e o cunhado, Aleksei Kilin, de 26 anos, ainda procuravam uma área isolada onde pudessem estabelecer uma fazenda. "Vários parentes estão agora me telefonando e perguntando como estão as coisas", disse. "Estão dizendo que, se eu conseguir encontrar um lugar para todos eles, estarão prontos para viver na Rússia."EXÍLIOVasily Reutov Filho de emigrante russo nascido no Uruguai"Sempre sentimos como se a Rússia fosse nosso lugar"

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