Rússia critica EUA por apoio a rebeldes na Líbia

Chanceler russo condena decisão americana de reconhecer opositores de Benghazi como legítimo governo líbio; insurgentes avançam contra Kadafi

, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2011 | 00h00

MOSCOU

Em um ataque indireto aos americanos, a Rússia criticou ontem "países" que decidiram reconhecer os rebeldes líbios como legítimo governo do país. A crítica foi feita uma semana após o anúncio da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, de que Washington estabeleceria relações formais com a oposição a Muamar Kadafi e buscaria transferir aos insurgentes os fundos bloqueados do ditador.

Segundo o chanceler russo, Sergei Lavrov, esse tipo de decisão representa uma ingerência diante de questões internas da Líbia. "Aqueles que declararam o reconhecimento (dos rebeldes) tomam totalmente o lado de uma das forças políticas em uma guerra civil", disse.

O reconhecimento americano aos rebeldes foi oficializado na sexta-feira. Diplomatas americanos tentam agora fazer com que os bilhões de dólares de Kadafi bloqueados em contas ao redor do mundo sejam transferidos a Benghazi. Os EUA não responderam às declarações de Lavrov, feitas ontem a jornalistas russos.

"Defensores dessa decisão (de reconhecer os rebeldes) são defensores de uma política de isolamento", argumentou o chanceler. Entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, somente a Rússia e a China não reconheceram os rebeldes como "legítima autoridade líbia". EUA, França e Grã-Bretanha já formalizaram os laços com a oposição - a quem fornecem apoio político e material contra Kadafi.

A Turquia reconheceu no início do mês os rebeldes de Benghazi, enquanto outras potências emergentes, como Brasil e Índia, seguem a posição da Rússia e da China.

A resolução do Conselho de Segurança da ONU que autorizou o uso da força contra Kadafi, adotada em fevereiro, não teve apoio de Pequim, Moscou, Brasília, Nova Délhi e Berlim. Rebeldes que lutam contra o regime anunciaram ontem sua maior vitória nos últimos meses.

Segundo Shamsiddin Abdulmolah, porta-voz do Conselho Nacional da Líbia (CNT), órgão que congrega os opositores, os insurgentes expulsaram praticamente todas as forças de Kadafi da cidade de Brega, um dos principais centros de exportação e refino do petróleo líbio.

Os combates na região de Brega teriam deixado mais de 30 mortos ao longo do fim de semana, segundo o porta-voz. Os opositores, que havia meses sitiavam a cidade, teriam obrigado a maior parte das forças do regime a bater em retirada. O CNT, porém, afirma que as ruas de Brega estão repletas de minas terrestres e armadilhas - o que ainda dificulta o domínio completo da região pelos rebeldes.

Nos últimos meses, a cidade delimitava a fronteira não oficial entre as forças de Kadafi e os rebeldes. "O principal corpo (das forças de Kadafi) recuou para a cidade de Ras Lanuf", disse o porta-voz do CNT, referindo-se ao centro urbano situado a oeste de Brega. "Fui informado de que eles têm alguns veículos 4 x 4 com metralhadoras espalhados entre Ras Lanuf e a cidade vizinha de Bishr", afirmou Abdulmolah. Ele diz que os rebeldes estariam agora se reunindo em Brega para forçar um novo recuo das forças de Kadafi.

Negociação. Os EUA confirmaram ontem que se reuniram com representantes do governo de Kadafi para transmitir uma mensagem "clara" de que ele deve deixar o poder. "Não se tratou de uma negociação", disse, em nota, o Departamento de Estado. "Foi a entrega de uma mensagem." / REUTERS

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