STR / AFP
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Rússia detém fuzileiros ucranianos e Kiev acusa Moscou de aumentar presença militar

Trata-se do primeiro confronto militar aberto entre Rússia e Ucrânia desde a anexação da Crimeia em março de 2014 e o início de um conflito armado no leste da Ucrânia

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2018 | 20h52

A Rússia deteve nesta terça-feira, 27, fuzileiros navais ucranianos capturados pela guarda costeira russa no litoral da Crimeia anexada pelos russos. O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, acusou Moscou de reforçar "drasticamente" sua presença militar na fronteira.

Esse é o primeiro confronto militar aberto entre Rússia e Ucrânia desde a anexação da Crimeia em março de 2014 e o início de um conflito armado no leste da Ucrânia. Desde então as forças ucranianas enfrentam os separatistas pró-russos, em um conflito com mais de 10 mil mortos.

Acusados de terem cruzado ilegalmente a fronteira russa, 12 fuzileiros navais ucranianos, dos 24 que foram detidos no domingo, estão em "detenção provisória até 25 de janeiro", conforme a decisão de um tribunal da Simferopol, capital da Crimeia, constatou um jornalista da agência France-Presse.

No total, 12 fuzileiros ucranianos se apresentaram nesta terça-feira ao juiz. O restante o fará na quarta-feira.

Poroshenko mencionou a ameaça de uma "guerra total" com Moscou e disse que a Rússia reforçou drasticamente sua presença militar na fronteira ucraniana.

Poroshenko se referiu a um forte aumento na quantidade de barcos militares russos no Mar de Azov e uma presença militar russa reforçada na Crimeia, península ucraniana anexada por Moscou há quatro anos, citando dados dos serviços de Inteligência ucranianos.

Na Crimeia, desde 2014, "o número de soldados triplicou, o de blindados quintuplicou, e o da artilharia multiplicou quase 10 vezes", disse.  "Não quero que alguém pense que é um jogo infantil. A Ucrânia está enfrentando a ameaça de uma guerra total com a Federação Russa", afirmou.

Poroshenko afirmou que tentou falar por telefone com o presidente russo, Vladimir Putin, após a captura pela Rússia, na noite de domingo, de três embarcações militares ucranianas no Mar Negro, em águas em frente à Crimeia, mas ele não respondeu.

"Não recebemos resposta. E me vi obrigado" a pedir à chanceler alemã, Angela Merkel, para "falar com Putin" sobre este incidente, acrescentou o chefe de Estado ucraniano. 

Em resposta, a Ucrânia instaurou a lei marcial nessas regiões fronteiriças durante um mês.

Lei marcial

O incidente entre a Guarda Costeira russa, vinculada ao Serviço Federal de Segurança (FSB), e os navios ucranianos aconteceu no domingo no Mar Negro, quando as embarcações tentavam entrar no estreito de Kerch para chegar ao Mar de Azov, uma rota marítima crucial para as exportações de cereais ou aço produzidos no leste da Ucrânia.

A guarda-costeira russa, vinculada aos serviços de segurança (FSB), controlaram pela força dois navios patrulheiros e um rebocador ucranianos, acusando-os de ter entrado ilegalmente em águas territoriais russas e capturaram 20 fuzileiros navais a bordo.

A Rússia classificou o incidente de "provocação", enquanto a Ucrânia denunciou um "ato de agressão" e pediu a libertação de seus fuzileiros e retorno de seus navios.

A instauração da lei marcial sem precedentes desde a independência da ex-república soviética em 1991 se deu por iniciativa do presidente ucraniano. 

Putin advertiu nesta terça-feira a Ucrânia contra qualquer ato "irracional" depois dessa decisão. 

A lei marcial, que será aplicada a partir de quarta-feira na Ucrânia em várias regiões de fronteira, em particular com a Rússia, Bielo-Rússia e as zonas costeiras do Mar de Azov, permitirá durante um mês que as autoridades ucranianas mobilizem a população, controlem os meios de comunicação e limitem as reuniões públicas.

Putin considera que "é evidente que tudo isso foi feito em relação à campanha eleitoral na Ucrânia", para a eleição presidencial de 2019.

A Rússia garante que agiu "em estrita conformidade com o direito internacional" e acusa Kiev de buscar "um pretexto para reforçar as sanções" da UE e de Washington contra a Rússia, vigentes desde 2014.

O incidente acontece dias antes da cúpula do G-20 na Argentina, onde Vladimir Putin deve se reunir com o presidente americano, Donald Trump. 

Vídeo

A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, denunciou na segunda-feira durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança uma ação "ilegal" da Rússia, que torna "impossível uma relação normal" entre Washington e Moscou.

"Não gostamos do que está acontecendo", disse Trump, sugerindo que trabalhará com os países europeus para solucionar a crise. 

A França pediu que as partes "tranquilizem" a situação.

Desde a anexação da Crimeia em 2014, a Rússia reivindica o controle do estreito de Kerch, a única rota marítima entre o Mar Negro e o de Azov.

Na segunda à noite, a imprensa russa transmitiu trechos do interrogatório dos marinheiros capturados em que um homem apresentado como capitão afirma que os movimentos de seu navio eram uma "provocação", repetindo a versão de Moscou. / AFP

 

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