Rússia diverge do Irã e diz que manter Assad no poder na Síria não é 'crucial'

Os dois maiores aliados do regime de Damasco discordam sobre a importância do líder sírio no processo de paz

Reuters, The New York Times e EFE, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2015 | 02h01

MOSCOU - Em um sinal de aparente discordância do Irã, a chancelaria russa afirmou nesta terça-feira, 3, que não vê a manutenção do presidente sírio, Bashar Assad, como uma questão de princípio. Representantes do governo iraniano, no entanto, ressaltaram que não há diferença de posição entre os dois principais aliados de Damasco sobre o futuro de Assad.

"Claro que não, nunca dissemos isso", respondeu Maria Zakharova, porta-voz da chancelaria russa, a uma pergunta sobre a necessidade de manter Assad no poder, em entrevista à emissora de rádio Eco, de Moscou. "Não dizemos se Assad deve sair ou ficar."

Embora Rússia e Irã venham se mostrando os aliados mais destacados de Assad durante os mais de quatro anos de guerra civil na Síria, os EUA, os países do Golfo Pérsico e a Turquia vêm insistindo que o presidente sírio deve sair para haver um acordo de paz no futuro.

Na semana passada, os principais envolvidos na busca por uma solução para a crise síria se reuniram em Viena, mas o esforço diplomático para se chegar a um entendimento sobre o futuro de Assad fracassou.

Zakharova alertou, porém, que outra mudança de regime no Oriente Médio pode ser uma catástrofe que "simplesmente transformaria a região toda em um grande buraco negro".

Ao lado do Irã e do grupo xiita libanês Hezbollah, a Rússia tem lançado bombardeios contra rebeldes que combatem Assad e contra o grupo sunita Estado Islâmico (EI) em uma operação militar lançada em setembro.

Em Teerã, o comandante da Guarda Revolucionária iraniana, o major-general Mohamed Ali Jafari, disse que a posição dos dois países é similar. "A Rússia pode não se importar tanto quanto nós se Bashar Assad continua no poder", afirmou. "Mas não conhecemos nenhuma pessoa melhor do que ele para substituí-lo."

Uma outra fonte do governo iraniano com contatos diplomáticos na Síria deu declarações na mesma linha. "Esqueça. Não há diferenças entre Rússia e Irã sobre Assad", afirmou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Diálogo. Na Síria, o vice-chanceler Faisal Mekdad, em visita ao Irã, rejeitou a ideia de que Assad deixe o poder durante uma eventual transição democrática após o conflito. "Estamos falando sobre um diálogo nacional e um processo constitucional. Não estamos falando sobre período de transição", disse o diplomata.

Ainda segundo o vice-chanceler, Assad foi eleito presidente e o povo sírio não reconhece alternativa a ele como líder do país. Apesar da posição irredutível do regime sírio, representantes de Assad podem se reunir na semana que vem com opositores em Moscou, informou nesta terça-feira o vice-chanceler russo Mikhail Bogdanov. O diplomata não deixou claro quais facções da oposição participariam do encontro, mas o convite é outro sinal de abrandamento na posição russa, que até semanas atrás evitava dialogar com qualquer facção rebelde.

O Departamento de Estado americano classificou de "prematura" a decisão russa de intermediar conversas entre a oposição e Assad. Segundo a porta-voz Elizabeth Trudeau, o foco das negociações diplomáticas sobre a Síria deveria ser a discussão entre EUA, UE, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e Irã, que se reuniram no fim de semana na Áustria.

Os 17 países reunidos divulgaram um comunicado, após o encontro, no qual pediram um cessar-fogo em toda a Síria e o retorno das negociações de paz patrocinadas pela ONU entre o regime de Assad e os rebeldes. Não houve acordo sobre a exigência de renúncia de Assad. O Irã ameaçou abandonar as negociações e acusou a Arábia Saudita, seu principal rival regional, de dificultar as negociações de paz. 

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