Eric Baradat / AFP
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Rússia e China barram na ONU pedido dos EUA para prorrogar embargo de armas ao Irã

Os chineses consideraram que os EUA, que se retiraram do acordo nuclear celebrado com o Irã, não têm mais poder para exigir que as Nações Unidas reimponham sanções internacionais contra Teerã; a Rússia diz que rejeita pressão americana

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 15h34

NAÇÕES UNIDAS - A China e a Rússia se opuseram, nesta terça-feira, 30, a um pedido dos EUA no Conselho de Segurança (CS) da ONU de prorrogação do embargo de armas contra o Irã, que expira em outubro. Por videoconferência com os demais membros do Conselho, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, argumentou que a suspensão do embargo significaria dar a esse país uma "espada de Dâmocles sobre a estabilidade econômica do Oriente Médio".

Pompeo alegou que isso poderia "colocar em risco países como a Rússia e a China, que dependem de preços estáveis de energia". Os argumentos, porém, foram rejeitados por Pequim e Moscou.

Os chineses consideraram que os EUA, que se retiraram em 2018 do acordo nuclear celebrado com o Irã, não têm mais poder para exigir que as Nações Unidas reimponham sanções internacionais contra Teerã, como alegou o embaixador chinês nas Nações Unidas, Zhang Jun. 

"A China se opõe à pressão dos EUA para estender o embargo de armas. Depois de deixar o JCPOA (acordo nuclear), os EUA não são mais membros (deste acordo nuclear) e não têm mais o direito de desencadear" um retorno das sanções internacionais no Conselho de Segurança, disse Jun.

A Rússia também rejeitou a pressão dos EUA. "Não podemos aceitar" as tentativas americanas de "legitimar por meio da ONU sua política de pressão máxima". "O que obteremos no final será uma escalada incontrolável", declarou o embaixador russo, Vassili Nebenzia.

O diplomata russo também criticou o fato de Pompeo ter decidido deixar a videoconferência antes de sua intervenção. O chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif, deveria responder a Pompeo no final da sessão.

Os EUA apresentaram recentemente a seus 14 parceiros do Conselho de Segurança um projeto de resolução que prevê uma prorrogação ilimitada do embargo de armas ao Irã, que expira em 18 de outubro.

Rússia e China, que têm interesses na venda de armas ao Irã, já disseram que se opõem a uma prorrogação do embargo e que poderiam usar seu veto se for realizada uma votação a este respeito. Dos 15 membros do CS, 10 ocupam cadeiras rotativas e 5 - EUA, Rússia, China, França e Reino Unido - são permanentes, como poder de veto.  

De acordo com o rascunho do texto americano, obtido pela France-Presse, qualquer venda de armas ao Irã seria proibida como qualquer exportação de armamentos iranianos. A resolução autorizaria os Estados membros a usar a força para fazer cumprir o embargo.

Transparência

No passado, os EUA ameaçaram, se o embargo de armas não fosse estendido, desencadear um processo de reimposição de sanções internacionais contra o Irã, previsto em um acordo nuclear concluído com este país em 2015. 

Nesta terça-feira, Pompeo não citou essa ameaça ou o desejo americano de aplicar novamente as sanções econômicas internacionais contra Teerã, acusado pelos americanos de querer adquirir armas atômicas e desestabilizar o Oriente Médio, em particular no Iêmen, Líbano e Síria.

Desde a retirada de Washington, em maio de 2018, deste acordo, a União Europeia, a Rússia e a China, que continuam a integrar o JCPOA, negam aos EUA o direito de ativar esse processo de reimposição de sanções internacionais.

O embaixador da União Europeia na ONU, Olof Skoog, enfatizou ao Conselho de Segurança que, desde maio de 2018, "os Estados Unidos não participaram de nenhuma reunião ou atividade no âmbito do acordo" nuclear de 2015.

Referindo-se às transgressões iranianas em relação a este acordo (acúmulo de urânio enriquecido além do limite autorizado, desenvolvimento de novas centrífugas...), Skoog pediu ao Irã "que retorne sem demora a uma total implementação dos seus compromissos".

"A implementação completa do JCPOA por todas as partes é crucial. É a única ferramenta que fornece à comunidade internacional as garantias necessárias relacionadas ao programa nuclear do Irã", insistiu.

"Perder o JCPOA também significaria perder o Protocolo Adicional (ao Tratado de Não Proliferação), os acessos (ao Irã) à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a transparência adicional" que ele traz , disse o embaixador europeu.

A ONU também enfatizou durante a videoconferência do Conselho de Segurança que "a implementação completa (do JCPOA) é a chave" para garantir a segurança internacional./ AFP

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