Yin Bogu/Xinhua via AP
Yin Bogu/Xinhua via AP

Rússia e China se aproximam em meio a tensões crescentes com os EUA

Durante uma cúpula realizada por videoconferência, os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, prometeram apoio mútuo em seus conflitos com o Ocidente, mas ainda não declararam uma aliança formal

Anton Troianovski e Steven Lee Myers, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 10h00

MOSCOU — O presidente americano, Joe Biden, pode ter sua aliança de democracias, mas Rússia e China ainda têm uma à outra.

Xi Jinping referiu-se a Vladimir Putin como seu “velho amigo”, e o presidente russo chamou seu colega chinês de “caro amigo” e “estimado amigo” durante a cúpula realizada por videoconferência entre os dois líderes nesta quarta-feira — uma mostra de solidariedade em face à pressão do Ocidente sobre Ucrânia, Taiwan e muitos outros assuntos.

Em um vídeo  divulgado pelo Kremlin com as declarações iniciais dos presidentes, Putin afirma que comparecerá à cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim, em fevereiro, tornando-se o primeiro líder mundial a confirmar presença no evento — que Biden já anunciou que irá boicotar, assim como líderes de Austrália, Canadá, Nova Zelândia e outros países.

Durante a cúpula, Xi expressou apoio às demandas de Putin por “garantias de segurança” do Ocidente que efetivamente preservariam a esfera russa de influência sobre partes do Leste Europeu, de acordo com o Kremlin. Essa veloz manobra diplomática e as alarmantes movimentações de tropas nas proximidades das fronteiras do sudoeste da Rússia fizeram autoridades ocidentais temer a possibilidade de uma invasão russa na vizinha Ucrânia nos próximos meses.

Autoridades chinesas não tornaram pública imediatamente sua própria versão a respeito da cúpula, que, segundo o Kremlin, durou cerca de uma hora e meia. O Kremlin afirmou que Putin concordou com a visão crítica de Xi em relação à atividade militar do Ocidente na região da Ásia-Pacifico, como o acordo para a Austrália produzir submarinos nucleares com ajuda americana e britânica.

Xi, notando que se encontrava com Putin pela 37.ª vez desde 2013, elogiou o presidente russo por frustrar tentativas de “provocar divisão entre nossos países”. Xi afirmou no início da cúpula virtual que ambos os países “defendem o verdadeiro significado da democracia e dos direitos humanos”, de acordo com a tradução de suas declarações para a língua russa.

Essa mensagem pareceu destinada a marcar um contraste em relação à Cúpula pela Democracia que Biden organizou na semana passada, que foi amplamente vista como um esforço para construir uma frente unida contra Rússia e China.

Adversários no passado, Pequim e Moscou estabeleceram laços econômicos, militares e geopolíticos cada vez mais próximos sob os governos de Putin e Xi — laços que cada vez mais se assemelham a um bloco contra a influência americana, à medida as disputas de ambos os países com os EUA se aprofundam. Xi disse a Putin que, ainda que Rússia e China não sejam aliados formais, “em sua proximidade e eficácia, essa relação até excede uma aliança”, de acordo com um assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, que deu informações a repórteres em Moscou após o encerramento da cúpula.

A reunião entre os líderes ocorre em um momento em que há muito em jogo. Karen Donfried, a secretária de Estado americana assistente para assuntos europeus e eurasiáticos, esteve em Moscou na quarta-feira para negociações sobre Ucrânia; autoridades russas apresentaram a ela uma proposta exigindo que o Ocidente retire seu apoio militar à Ucrânia e descarte a expansão da Otan no sentido da adesão da Ucrânia e de outros países da região à aliança.

Xi “sublinhou que entende as preocupações russas e apoia totalmente nossa iniciativa de  desenvolver tais garantias de segurança para a Rússia”, afirmou Ushakov.

Houve também um sinal de que, ainda que os EUA e seus aliados ameacem esmagar a Rússia com sanções econômicas caso os russos invadam a Ucrânia, Moscou tem muitos outros amigos pelo mundo. A viagem do presidente russo a Nova Délhi, na semana passada, para encontrar-se com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, mandou uma mensagem similar.

Na quarta-feira, Putin e Xi discutiram até a formação de uma “infraestrutura financeira independente”, afirmou Ushakov, aparentemente em um esforço para reduzir sua dependência de bancos ocidentais e sua vulnerabilidade às sanções.

“Um novo modelo de cooperação foi constituído entre nossos países — com base em fundamentos como não interferência em assuntos domésticos e respeito aos interesses uns dos outros”, disse Putin a Xi.

Tanto a Rússia quanto a China acusam com frequência o Ocidente de interferir em assuntos domésticos de outros países e desrespeitar seus interesses.

Em outro símbolo de sua união, Xi e Putin falaram em cenários composto pelas bandeiras de ambos os países, colocadas lado a lado atrás dos líderes — o que não ocorreu na videoconferência da semana passada entre Putin e Biden, quando o russo apareceu diante de uma única bandeira, a russa.

Para Xi, a cúpula representou uma chance de desviar das críticas que têm se acumulado sobre a China em razão de suas ações em regiões como o Mar do Sul da China e sua fronteira montanhosa com a Índia. Xi tem intenção de mostrar que a China não está isolada diplomaticamente, especialmente às vésperas da Olimpíada de Inverno, que pretende exibir a estatura global da China, não a deterioração das relações do país com grande parte do mundo.

“Espero que em fevereiro do ano que vem nós finalmente nos encontremos pessoalmente em Pequim”, disse Putin a Xi. “Temos apoiado um ao outro indefectivelmente em questões de cooperação esportiva internacional, incluindo em não admitir nenhuma tentativa de politizar os esportes ou o movimento olímpico.”

Cheng Xiaohe, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Renmin, em Pequim, afirmou que a relação entre os dois países deu aos seus líderes a oportunidade de expressar “apoio mútuo e disputas comuns” com os EUA. Isso é especialmente verdadeiro em um tempo de incerteza econômica e elevação nas tensões internacionais.

“Tanto da China quanto a Rússia enfrentam o mesmo tipo de pressão dos EUA”, afirmou ele. “Portanto, China e Rússia precisam apoiar um ao outro na diplomacia.”

Os líderes dos dois países conversam com frequência — apesar de apenas virtualmente desde que a pandemia começou. O que houve de incomum a respeito da cúpula da quarta-feira foi o esforço chinês de telegrafar sua mensagem anteriormente. "Coordenação estratégica próxima” entre os dois países, conforme colocou um porta-voz da chancelaria esta semana, é essencial no mundo turbulento de hoje.

Os dois países aprofundaram uma relação que, ao longo de décadas, foi repleta de suspeições e, em 1969, engendrou um confronto fronteiriço, próximo a Khabarovsk.

Quando a Rússia sofreu sanções punitivas após anexar a Crimeia, em 2014, Putin se voltou à China em busca de alívio, intensificando o comércio ao longo da fronteira entre os países em setores como energia e madeira. Naquele mesmo ano, a opinião pública russa a respeito da China melhorou acentuadamente; hoje, 70% dos russos têm uma impressão positiva a respeito da China, de acordo com o instituto independente de pesquisas Levada Center — muito melhor do que a opinião dos russos sobre EUA, União Europeia e Ucrânia.

Os exércitos russo e chinês também intensificaram exercícios conjuntos e têm realizado até operações, incluindo aéreas, e, pela primeira vez desde outubro, patrulhas marítimas no Pacífico. Os dois países prometeram explorar juntos o espaço sideral.  

Antes da videoconferência da quarta-feira, Dmitri Rogozin, diretor do programa espacial da Rússia, afirmou que o projeto de uma estação lunar sino-russa “terá como base princípios de parceria igualitária, transparência e consenso no processo de tomada de decisões” — em contraste aos termos estabelecidos pelos EUA para seu projeto de estação lunar. 

Apesar disso, essa frente unida tem limites. A China, por exemplo, não reconheceu a anexação da Crimeia; e a Rússia não apoia as expansivas reivindicações chinesas no Mar do Sul da China. Os países também não chegaram a vincular-se a uma aliança formal, preferindo manter sua faculdade de agir independentemente e flexivelmente. 

“Não acho que eles estejam em um ponto em que Pequim apoiaria uma ação aventureira na Ucrânia — nem em que a Rússia apoiaria ardentemente os chineses caso eles decidissem invadir Taiwan”, afirmou Sergei Radchenko, professor de relações internacionais da Universidade Cardiff, que escreve extensivamente a respeito dessa relação. “Eu imaginaria que ambos demonstrariam algum grau de neutralidade indulgente em relação ao outro.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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