Rússia e EUA avançam em troca de espiões

Confissão de russos que admitiram ser espiões seria parte de acordo de bastidores entre Moscou e Washington para libertar agentes americanos

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

Os dez espiões russos presos na semana passada nos EUA declararam-se culpados à Justiça americana e, por determinação do juiz responsável, devem ser deportados imediatamente. A ação seria parte de um acordo de bastidores entre Washington e Moscou. Em troca, a Rússia deve libertar quatro pessoas condenadas por passar informações para os EUA.

Segundo o Kremlin, o presidente Dmitri Medvedev assinou ontem um decreto perdoando os quatro condenados por espionagem. Apesar de não haver confirmação oficial dos governos americano e russo, as libertações e deportações dos prisioneiros dos dois lados poderiam ocorrer ainda ontem.

O cientista nuclear russo Igor Sutyagi, que seria um dos supostos agentes dos EUA na Rússia, já teria sido levado de Moscou para Viena, onde seria libertado, segundo seus parentes e sua advogada. Jornais e TVs russos informavam que outros agentes a serviço de Washington também seriam soltos. A BBC citou, além de Sutyagi, três ex-militares russos que teriam espionado para os americanos. Em Nova York, os promotores concordaram, com a confissão dos envolvidos, em manter apenas a acusação de conspirar secretamente como agentes de um governo estrangeiro, apesar de nove deles também serem acusados de lavar dinheiro.

Codinomes. Ao confessar ser espiões, alguns detidos pelo FBI em 27 de junho disseram seus verdadeiros nomes. O casal chamado Richard e Cynthia Murphy eram na verdade Vladimir e Lydia Guryev. O agente que se dizia chamar Juan Lazaro era Mikhail Anatonoljevich Vasenkov. Donald Howard Heathfield tem como identidade verdadeira Andrei Bezrukov. Tracey Lee Ann Foley chama-se na realidade Elena Vavilova.

Não há informação dos nomes verdadeiros dos demais detidos. Além dos dez, o FBI procura ainda mais um membro do grupo que está foragido. A rede de espionagem desmantelada pelos americanos surpreendeu por usar métodos da Guerra Fria, ao colocar russos com identidades falsas para viver em meio à população comum dos EUA. Usando um método ultrapassado, os espiões não teriam conseguido informações importantes. Além disso, segundo analistas de inteligência, dificilmente eles recolheriam informações que não estejam disponíveis na internet.

Apesar das prisões, as relações entre os EUA e a Rússia, que melhoraram nos últimos meses depois da crise durante o conflito na Geórgia em 2008, não se deterioraram. Os dois lados teriam agido para viabilizar o acordo para a troca dos prisioneiros.

PARA LEMBRAR

Acordo repete procedimento da Guerra Fria

A troca nos bastidores de espiões e soldados entre Washington e Moscou era praticamente um "procedimento padrão" da Guerra Fria. Uma das mais famosas é a do piloto americano Garry Powers pelo coronel da KGB Rudolf Abel. Abatido enquanto sobrevoava a URSS com um avião-espião U-2, em 1960, Powers foi trocado em 1962 por Abel, que tinha sido preso em 1950 acusado de montar uma rede de espionagem para obter segredos nucleares dos EUA. A troca ocorreu na Ponte Glienicke, localizada na região de Potsdam, em Berlim Oriental, a poucos metros da fronteira com a Alemanha Ocidental.

No mesmo local ocorreu, em 1985, a maior troca de espiões entre os dois blocos da Guerra Fria. Foram entregues aos EUA 23 agentes que estavam em prisões na Alemanha Oriental e Polônia em troca da libertação de 4 espiões do bloco comunista. Entre os soviéticos entregues pelas autoridades americanas estava Marian Zacharski, considerado o maior espião da Polônia por ter revelado, ao longo de décadas, segredos de aeronaves e radares desenvolvidos pelos EUA.

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