Vitaly Nevar/Reuters
Vitaly Nevar/Reuters

Rússia envia tropas a Belarus para exercícios conjuntos perto da fronteira com a Ucrânia

Movimento ocorre em meio à escalada de tensões entre Rússia e a Otan e após um ataque cibernético ao governo ucraniano

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2022 | 17h11

MOSCOU - A Rússia está enviando forças militares e equipamentos para a ex-república soviética de Belarus para a realização de exercícios conjuntos a partir de fevereiro. A informação foi confirmada por Minsk nesta segunda-feira, 17, em meio a tensões crescentes entre Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre a Ucrânia.

Enquanto isso, países europeus e a Otan prometeram proteger a soberania ucraniana e ameaçaram com um preço alto caso a Rússia ataque a Ucrânia. As ameaças ocorrem depois de um ataque cibernético a Kiev, no qual Moscou aparece como principal suspeita.

Os exercícios militares serão realizados perto no oeste de Belarus, próximos às fronteiras dos membros da Otan Polônia e Lituânia, e em seu flanco sul com a Ucrânia, disse o líder bielorrusso Alexander Lukashenko. "Defina uma data exata e nos avise, para que não sejamos culpados por reunir algumas tropas aqui do nada, como se estivéssemos nos preparando para ir à guerra", disse ele a altos oficiais militares.

Os movimentos de tropas da Rússia estão sendo examinados de perto à medida que um acúmulo militar perto das fronteiras da Ucrânia e uma enxurrada de retórica ameaçadora despertaram temores ocidentais de que Moscou esteja planejando invadir a Ucrânia. Moscou nega qualquer plano desse tipo, mas usou o impasse para fazer campanha por garantias de segurança por parte do Ocidente, incluindo a suspensão da expansão da Otan e um veto formal à Ucrânia, uma ex-república soviética.

O líder bielorrusso, um pária no Ocidente desde uma ampla repressão a protestos em 2020 e a crise migratória do ano passado com a União Europeia, disse que os exercícios são necessários porque a Ucrânia reuniu tropas perto de Belarus. Segundo ele, a Polônia e os países bálticos têm mais de 30.000 soldados perto das fronteiras.

Lukashenko lidera a ex-república soviética que Moscou vê como um estado-tampão para o Ocidente desde 1994 e fortaleceu os laços com a Rússia durante os protestos em massa que eclodiram em 2020 quando o Ocidente impôs sanções. "Estes devem ser exercícios normais para elaborar um certo plano para enfrentar essas forças: o Ocidente, o Báltico e a Polônia e o sul - Ucrânia", disse ele em comentários divulgados pela mídia estatal. 

O Kremlin disse separadamente que relatos de que a Estônia estava preparada para receber até 5.000 soldados da Otan mostravam que Moscou estava certa em se preocupar. "São exatamente coisas como essas que provam que temos motivos para nos preocupar e que não somos o motivo da escalada das tensões", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Europeus ameaçam Rússia após ataque cibernético

Em meio à nova escalada de tensões, a nova ministra alemã das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, disse em visita a Kiev que está pronta para um diálogo sério com a Rússia sobre segurança mútua, mas não estava disposta a recuar "em princípios básicos como a inviolabilidade territorial, a livre escolha de alianças e a renúncia à ameaça de violência".

Ela disse que Moscou sofreria se lançasse um ataque. "Cada novo ato agressivo terá um preço elevado para a Rússia, economicamente, estrategicamente, politicamente", disse em uma conferência de imprensa com seu homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba. "A diplomacia é o único caminho".

Ao mesmo tempo, o Reino Unido disse que está fornecendo à Ucrânia um novo pacote de sistema de segurança para ajudar a aumentar suas capacidades defensivas, disse o ministro da Defesa, Ben Wallace.

"Tomamos a decisão de fornecer à Ucrânia sistemas leves de armas defensivas anti-blindagem", disse Wallace ao parlamento, acrescentando que estava convidando seu colega russo a visitar Londres nas próximas semanas para discutir a crise. "Não são armas estratégicas e não representam uma ameaça para a Rússia. Devem ser usados ​​em autodefesa."

A retórica dos europeus subiu alguns tons depois de um ataque cibernético contra a Ucrânia na última semana, que derrubou diversos sites do governo. Com isso, a Otan assinou nesta segunda-feira um acordo para reforçar seu apoio à Ucrânia em segurança cibernética. 

Ludwig Decamps, chefe da Agência de Informação e Comunicações da Otan, disse que "trabalhamos com sucesso com a Ucrânia durante vários anos, fornecendo treinamentos-chave e trocando conhecimentos".

E acrescentou: “com este acordo reforçado, aprofundaremos nossa colaboração com a Ucrânia para apoiá-los na modernização de seus serviços de comunicações e tecnologia da informação, ao mesmo tempo em que identificamos áreas onde é possível exigir capacitação para sua equipe".

A Ucrânia afirmou no domingo, 16, que tinha provas de que a Rússia esteve por trás do ataque da semana passada, embora o governo de Moscou negue qualquer responsabilidade no episódio. 

"No momento, podemos dizer que todas as evidências apontam para a Rússia estar por trás do ataque", disse o ministério de transformação digital da Ucrânia em uma declaração no domingo. "Moscou continua a travar uma guerra híbrida e está crescendo ativamente suas capacidades de informação e ciberespaço". Kiev disse que a investigação estava em andamento e não atribuiu formalmente o ataque à Rússia.

Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, também deixou de culpar Moscou no domingo, mas disse: "Não me surpreenderia nem um pouco se o ataque acabasse sendo atribuído à Rússia".

Separadamente, o Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia afirmou no fim de semana que suspeitava que um grupo de hackers ligado à inteligência bielorrussa havia perpetrado o ataque, sugerindo que a Rússia poderia ter usado seu aliado para criar uma negação plausível de seu próprio envolvimento.

Pretexto para invasão

Os aliados ocidentais da Ucrânia alertaram que os ataques cibernéticos poderiam ser um prelúdio para novas agressões militares depois que Moscou acumulou 100.000 soldados perto da fronteira nos últimos meses.

O ataque cibernético, que derrubou cerca de 70 sites do governo, veio quando a Casa Branca advertiu que a Rússia estava posicionando forças no leste da Ucrânia como parte de uma "operação de bandeira falsa" para criar um "pretexto para a invasão".

Os EUA e a União Europeia prometeram impor sanções "paralisantes" contra a Rússia em uma escala muito maior do que após a anexação da Crimeia, se ela renovasse sua agressão contra a Ucrânia. A Rússia tomou o controle da península ucraniana em 2014 e desde então tem fomentado uma guerra separatista contra o governo central de Kiev na região oriental da Bacia do Donets.

A Rússia negou estar planejando invadir a Ucrânia, mas alertou para uma "resposta militar-técnica" não especificada se os EUA não atenderem às exigências de Vladimir Putin para reverter a expansão da Otan para o leste e se comprometerem a nunca admitir antigos países soviéticos, incluindo a Ucrânia.

As autoridades ocidentais se recusaram a ceder nas exigências enquanto tentavam chegar a um compromisso em questões como controle de armas e implantações militares. Dmitry Peskov, porta-voz de Putin, disse à CNN americana que o fracasso das conversações em Genebra, Bruxelas e Viena foi "perturbador", pois Moscou e a Otan permaneceram em "caminhos totalmente diferentes"./AP, AFP e REUTERS

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