Anton Vaganov/Reuters
Anton Vaganov/Reuters

Rússia expulsa diplomatas europeus por protestos a favor de Navalni

Segundo o governo, os representantes de Suécia, Polônia e Alemanha participaram de 'manifestações ilegais em 23 de janeiro' em São Petersburgo e Moscou

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 17h57

MOSCOU - A Rússia expulsou nesta sexta-feira, 5, diplomatas da Suécia, da Polônia e da Alemanha acusando-os de terem participado de protestos a favor do opositor Alexei Navalni. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, os representantes de países estrangeiros expulsos participaram de “manifestações ilegais em 23 de janeiro” em São Petersburgo e Moscou. O governo não informou quantos foram considerados 'persona non grata' no território russo.

O anúncio da expulsão ocorreu após uma reunião em Moscou do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e o chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, que condenou “veementemente” a decisão de expulsar “diplomatas” e enfatizou que a medida“deve ser reconsiderada”, disse o porta-voz da diplomacia europeia, Peter Stano. Segundo Borrell, a medida afeta três diplomatas. 

“Consideramos essas expulsões injustificadas. Acreditamos que isso mostra que a Rússia está muito longe de ser um estado de direito”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em entrevista coletiva conjunta com o presidente francês, Emmanuel Macron.

A Suécia, por sua vez, considerou a expulsão de seu diplomata “totalmente infundada” e anunciou que “se reserva no direito de reagir apropriadamente”. Já a Polônia alertou que a expulsão de seu diplomata poderia “aprofundar ainda mais a crise nas relações bilaterais”. Os ministros das Relações Exteriores da Polônia e da Alemanha convocaram o embaixador russo às suas capitais para expressar seu descontentamento.

A chancelaria russa, por sua vez, disse que considerou as “ações dos diplomatas inaceitáveis e incompatíveis com seu status”. “O governo russo espera que no futuro as missões diplomáticas” da Suécia, Polônia e Alemanha “respeitem escrupulosamente as normas do direito internacional”, informou o ministério em um comunicado.

Horas antes, Borrell havia considerado que o relacionamento entre a União Europeia (UE) e a Rússia estava em seu nível “mais baixo” por causa da prisão de Navalni. 

A polícia russa já deteve pelo menos 10 mil pessoas nas últimas três semanas durante após protestos massivos no país para exigir a libertação do líder opositor de 44 anos. Ele foi preso em meados de janeiro ao retornar a Moscou vindo da Alemanha, onde passou por um tratamento após ser envenenado – ele acusa o presidente russo, Vladimir Putine às forças de segurança do FSB do crime.

Na terça-feira, Navalni foi condenado a cumprir pena de 2 anos e 8 meses de prisão por descumprir regras de uma liberdade condicional por causa de uma condenação de 2014. Na audiência, o opositor do Kremlin disse que não teria como se apresentar à Justiça da Rússia no ano passado, pois estava na UTI.

Difamação

Navalni começou a ser julgado por um outro processo nesta sexta-feira em Moscou. Ele é acusado de divulgar informações “falsas” e “caluniosas” sobre um ex-combatente da 2.ª Guerra que defendeu em um vídeo o referendo que deu mais poderes ao presidente Putin no ano passado. A pena para o crime varia de multa a prisão. Na ocasião, ele disse que as pessoas que participaram do vídeo eram uma “vergonha para a nação” e de “traidores”. 

Durante a audiência de hoje, Navalni, que afirma ser vítima de perseguição política pelo governo Putin, acusou a família do veterano de tentar “ganhar dinheiro à sua custa”.

A vitória soviética na 2.ª Guerra é motivo de orgulho para os russos e críticas aos veteranos geralmente são mal recebidas. O ex-combatente, que participou da audiência por videoconferência, vestiu seu uniforme com suas medalhas.

Navalni também é alvo de uma investigação por “fraude”, um crime que pode resultar em uma pena de 10 anos de prisão. Muitos de seus colaboradores estão detidos ou em prisão domiciliar.

Relações ruins

Apesar das divergências, em temas como Ucrânia, Síria ou Líbia, Rússia e UE expressaram o desejo de cooperar “quando há interesse comum”, nas palavras de Lavrov. Borrell citou como áreas de cooperação “a cultura, a pesquisa, a covid-19 e o clima”, mas lembrou que a UE considera temas cruciais os direitos humanos ou as liberdades políticas.

Apesar dos estreitos laços comerciais e da interdependência energética, as relações políticas da Rússia com a União Europeia começaram a se deteriorar depois que Moscou anexou a Crimeia da Ucrânia em 2014. /AFP, REUTERS e NYT

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