Rússia fala em saída de Assad do poder

Moscou indica estar reduzindo seu apoio ao regime sírio, que intensificou ofensiva

BEIRUTE , O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2012 | 02h02

Os violentos combates e os revezes diplomáticos são os mais recentes sinais de agravamento dos confrontos pelo controle da capital síria, Damasco. Um funcionário de alto escalão da Turquia afirmou que a Rússia concordou com uma nova estratégia para achar meios de convencer o presidente Bashar Assad a deixar o poder, indicando um possível abrandamento do apoio de Moscou ao governo sírio.

Os sinais de que os combates por Damasco se intensificaram nos últimos dias são evidentes. Segundo a TV Al-Manar, do Líbano, Jihad Makdissi, um importante porta-voz da chancelaria síria, já teria deixado o país - o que teria sido encarado como "deserção" pelo governo.

Na segunda-feira, os EUA lançaram advertências contra o uso de armas químicas, a ONU anunciou a retirada de seus funcionários não essenciais do país, a União Europeia decidiu reduzir suas atividades na capital e a Rússia, pela primeira vez, falou sobre a possibilidade de repatriar cidadãos russos.

Assad resiste muito mais do que o previsto no início do levante, há 21 meses. Ele continua com forte vantagem militar e apoio do seu principal aliado, o Irã. Mas analistas militares duvidam que os rebeldes tenham condições de tomar Damasco e ainda não há sinais concretos de que a Rússia esteja disposta a retirar seu apoio ao governo.

Entretanto, acontecimentos recentes sugerem que Assad estaria sendo obrigado a combater com mais violência para manter-se no poder. Os rebeldes ameaçam seu controle aéreo usando mísseis terra-ar para derrubar aviões, conquistando bases estratégicas e obrigando o governo a fechar periodicamente o aeroporto de Damasco.

Muitos observadores dizem que é difícil avaliar com precisão a situação do governo, mas sugerem que o fim pode estar mais próximo. Nabil al-Arabi, secretário-geral da Liga Árabe, disse que Assad pode cair "a qualquer momento". Em breve, alguma coisa acontecerá", disse. "Agora, os fatos indicam muito claramente que a oposição síria está ganhando, tanto do ponto de vista político quanto militar."

Mudança de lado. Há algum tempo, a Liga Árabe pede a Assad que renuncie, mas a Rússia, seu mais poderoso aliado, fala na possibilidade de ele permanecer no poder durante a transição. Por isso, uma eventual mudança de lado de Moscou teria mais peso.

Um claro sinal de desconforto foi dado por Mikhail Bogdanov, vice-chanceler da Rússia. Ele afirmou que o Kremlin está disposto a ajudar os russos que desejem deixar a Síria. Depois de uma reunião em Istambul, na segunda-feira, o presidente Vladimir Putin e seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, disseram ter concordado com uma nova estratégia.

"Não estamos protegendo o regime da Síria. Estamos preocupados com o futuro do país", afirmou Putin.

Um funcionário turco de alto escalão, que pediu para não ser identificado, disse que há planos para convencer Assad a deixar o poder e a Rússia, agora, estaria mais empenhada em encontrar uma saída. "Definitivamente, Moscou abrandou o tom do seu discurso político", disse o funcionário turco. Entretanto, há dúvidas quanto à possibilidade de a Rússia conseguir um avanço. O Kremlin diz que a crise só será resolvida com negociações entre o governo da Síria e seus adversários.

Enfraquecimento. Enquanto os combates ao redor de Damasco seguem intensos, analistas afirmam que os rebeldes, provavelmente, não conseguirão tomar a cidade. No entanto, eles poderiam forçar o governo sírio a reunir suas forças na capital, facilitando a ofensiva da oposição pelo controle de outras partes do país.

"Percebemos uma mudança na situação da segurança", afirmou Mohamed Hadi, diretor do Programa Mundial da ONU para a Alimentação. "Você ouve o som das explosões, ouve as bombas caindo, e não sabe de onde elas vêm nem onde cairão", disse Hadi. "Isso está se tornando parte da vida diária." / NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.