Sergei Ilnitsky/EFE
Sergei Ilnitsky/EFE

Rússia iniciará vacinação e moradores de Moscou podem agendar pela internet

Imunização na capital russa começa no sábado para grupos específicos; funcionários públicos municipais de Moscou afirmam que foram pressionados pelo governo a participar de processo de testagem da Sputnik V

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2020 | 16h47
Atualizado 05 de dezembro de 2020 | 01h17

MOSCOU - Sputnik V, a vacina russa, entra no sábado, 5, oficialmente em ação nos centros de imunização abertos em Moscou. Os primeiros a receber uma dose serão professores, médicos e assistentes sociais. Desde esta sexta-feira, 4, os moradores da capital, que estão no grupo de risco, podem agendar a vacinação pela internet. 

Kirill Dmitriev, que dirige o fundo responsável pelos investimentos na vacina, disse que 2 milhões de pessoas serão vacinadas em dezembro. O ministro da Saúde, Mikhail Murashko, disse que 100 mil russos já tomaram a primeira dose. O governo garante que Sputnik V, batizada com o nome do primeiro satélite soviético, tem eficácia de mais de 95% após a aplicação da segunda dose. 

O Instituto Gamaleya, que desenvolveu a vacina, recebeu encomendas de vários países, entre eles Argentina, Nigéria, Bielo-Rússia, Casaquistão e Romênia. No Brasil, os governos do Paraná e da Bahia já firmaram acordos com os russos para ensaios e aquisição de doses. A Hungria também começou a importar a Sputnik V, mesmo sob ameaça de sanções da União Europeia (UE)

O maior problema da vacina russa ainda é a confiança. Cientistas demonstram preocupação com relação à rapidez com que Moscou deu aval regulatório e lançou a vacinação em massa antes da conclusão de testes de segurança e eficácia. 

Outro ponto controvertido do imunizante foi a participação de funcionários públicos. Segundo reportagem da agência Reuters, que teve acesso a mensagens trocadas entre servidores municipais, muitos foram pressionados a participar dos ensaios clínicos. Para tentar escapar da coação, alguns teriam inclusive tomado a vacina contra a gripe, tornando-se inelegíveis para os testes com a Sputnik V.

“Quem vocês estão tentando enganar?”, esbravejou Serguei Martyanov, chefe de um órgão da administração municipal de Moscou, em uma das mensagens. “A vacina do coronavírus é prioridade absoluta!” Segundo ele, todos os funcionários públicos deveriam recrutar parentes e amigos para os testes. “Pelo menos duas pessoas por funcionário”, exigiu.

Martyanov não quis comentar a reportagem da Reuters. A Secretaria de Saúde de Moscou disse que a decisão de participar dos testes era voluntária. No entanto, fontes do órgão admitiram que todas as secretarias da administração da capital russa, que conta com cerca de 20 mil pessoas, receberam metas de participação nos testes.

A Sputnik V recebeu aprovação formal das autoridades russas em agosto – foi a primeira vacina no mundo a ser regularizada por um governo. A Rússia pretende produzir mais de um bilhão de doses em 2021. O presidente Vladimir Putin garantiu que a vacina “passou em todos os testes”, mas ele próprio ainda não foi vacinado, de acordo com o Kremlin.

“O presidente não pode usar uma vacina não certificada”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. “A vacinação em massa ainda não começou. E, claro, o chefe de estado não pode participar da vacinação como voluntário. É impossível.”

Em agosto, Putin anunciou pela primeira vez que a vacina da Rússia havia sido aprovada, embora ela tivesse sido testada apenas em algumas dezenas de indivíduos. O comunicado de Putin foi feito antes do início dos testes de fase 3, que estabelecem segurança e eficácia, e atraiu ceticismo da comunidade internacional. “Sei que funciona de maneira bastante eficaz, forma uma imunidade estável”, afirmou Putin na ocasião, antes de acrescentar que uma de suas filhas já havia recebido a vacina.

Dez vacinas estão sendo desenvolvidas na Rússia, segundo Anna Popova, chefe do Ministério da Saúde. A Sputnik V é uma das duas que já receberam aprovação regulatória. A Rússia é um dos países mais afetados pelo coronavírus no mundo. Com 2,4 milhões de casos registrados, ela só fica atrás de EUA, Índia e Brasil em número total de infecções. Desde o início da pandemia, 42 mil pessoas morreram em razão da covid no país.

Elite já teria tido acesso à vacina

Muitos na Rússia permanecem céticos com relação à vacinação da população. De acordo com pesquisa do Levada Center, publicada em outubro, 59% dos russos não tomariam vacinas para a covid-19. A pesquisa não detalha as razões do ceticismo, mas o lobby antivacinas vem se consolidando no país, assim como na Europa e nos EUA. Curiosamente, segundo o site investigativo russo Proyekt, a elite política da Rússia é um dos setores da sociedade que mais confiam na Sputnik V. 

Desde abril, empresários, magnatas e altos funcionários do Estado teriam recebido doses da vacina em segredo – antes mesmo de ela ser registrada, em agosto. Autoridades russas negaram que qualquer um no país tenha tido acesso privilegiado à vacina. No entanto, a agência Bloomberg confirmou que várias pessoas com conexões com o Kremlin foram vacinadas antecipadamente./ NYT, REUTERS e AP 

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