Russian Defense Ministry Press Service via AP
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Rússia intensifica guerra de propaganda nas redes sociais em meio a tensões com Ucrânia

Campanha de desinformação associa EUA e Otan a genocídio, nazismo e ataques químicos

Julian E. Barnes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2022 | 15h00

No mês passado, quando os EUA alertaram para a presença de tropas russas nas fronteiras da Ucrânia e o presidente Joe Biden ameaçou Vladimir Putin com sanções se ele invadisse o país vizinho, pesquisadores notaram um aumento nas publicações em redes sociais acusando a Ucrânia de tramar um genocídio contra ucranianos de etnia russa.

Em um exemplo disso, um ramo da emissora RT, controlada por Moscou, circulou um vídeo de Putin dizendo que o que vem acontecendo no leste da Ucrânia "se assemelha a um genocídio".

A seguir, em 13 de dezembro, o News Front –que o Departamento de Estado americano descreve como um veículo de desinformação ligado aos serviços de segurança russos— publicou artigo dizendo que os EUA não consideram os massacres um genocídio.

Segundo pesquisadores, nos meses passados desde que a Rússia começou a acumular tropas na região, Moscou e seu exército de aliados online vêm reciclando argumentos antigos dizendo que os ucranianos ocidentais estão alinhados com o nazismo. Eles acusaram os EUA falsamente de utilizar forças terceiras para tramar um ataque químico e alegaram que as operações militares planejadas da Rússia visam proteger russos étnicos ou prevenir ações da Otan, a aliança militar do Ocidente.

Funcionários de inteligência dos EUA disseram que a Rússia vem produzindo um fluxo regular de desinformação sobre a Ucrânia desde 2014. Mas eles observaram uma intensificação do fluxo em dezembro e janeiro, enquanto Moscou aumentava a pressão sobre o governo de Kiev.

A firma de tecnologia Logically, sediada no Reino Unido e que ajuda governos e empresas a combaterem a desinformação, começou a monitorar contas de mídia social alinhadas com a Rússia, como as da RT e da Sputnik, além de contas no Twitter de autoridades russas.

Segundo a Logically, desde o início de novembro houve um aumento acentuado nas publicações e artigos acusando alguns ucranianos de serem neonazistas. A campanha de informação apoiada por Moscou acusando os EUA de planejarem um ataque químico teria chegado ao auge em 21 de dezembro.

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O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Boa parte da propaganda tem como alvo o público doméstico na Rússia e os ucranianos pró-Moscou, disse Brian Murphy, vice-presidente de operações estratégicas da Logically. Para ele, se a Rússia de fato invadir a Ucrânia, quer garantir o apoio de falantes de russo no país quando seus tanques e artilharia atravessarem campos e derrubarem casas. "Hoje restam muito poucas pessoas na Ucrânia que ainda estão em cima do muro", disse Murphy. "Moscou quer fortalecer o apoio com que conta nas regiões ucranianas ocupadas por separatistas e na própria Rússia."

Mas a propaganda pode facilmente se espalhar para além do público de idioma russo.

Funcionários de inteligência dizem que, embora seja improvável que a Rússia consiga fazer muitas pessoas na Europa mudarem de ideia, suas mensagens são mais bem recebidas na América do Sul e na África, propagando incerteza sobre qual país é responsável pela crise na Ucrânia.

Como fez em seus esforços para dividir o eleitorado americano em 2016, instigando discussões sobre racismo, armas de fogo e outras questões que geram divisões, a Rússia está tentando intensificar a polarização na Ucrânia para beneficiar-se taticamente dela, disse Murphy.

Em informativo divulgado na semana passada, o Departamento de Estado disse que boa parte da desinformação repete temas antigos, como retratar a Rússia como vítima das ações dos EUA, descrever as sociedades ocidentais como estando à beira do colapso pelo fato de terem se afastado dos valores tradicionais e caracterizar Washington como defensor de revoluções na região.

Pesquisadores identificaram temas semelhantes transmitidos de contas russas, incluindo um aumento no número de postagens alegando que a Otan e as forças ucranianas estariam se preparando para atacar falantes de russo na Ucrânia. As alegações sobre uma intervenção da aliança na Ucrânia chegaram a um pico no final de dezembro e cresceram mais ainda em meados de janeiro, segundo a Logically.

Ex-diretor do ramo de inteligência do Departamento de Segurança Interna americano, Murphy disse que alegar interferência da Otan na Ucrânia é há muito tempo uma das acusações habitualmente feitas por Moscou. Embora frequentemente seja difícil identificar a origem de uma desinformação específica, os pesquisadores podem discernir quando muitas contas russas começam a difundir a mesma narrativa.

"Parece uma campanha coordenada", disse Murphy. "As contas começam a divulgar mensagens semelhantes mais ou menos ao mesmo tempo." A alegação de que os EUA estariam preparando um ataque químico foi feita originalmente pelo ministro da Defesa russo. Mas especialistas em desinformação rastrearam como ela foi amplificada por várias contas diferentes.

Versões da acusação foram circuladas por veículos de mídia do Estado e por sites que, segundo o governo americano, são utilizados por serviços de inteligência russos, como o News Front e o Strategic Culture Foundation, disse Bret Schafer. Ele é diretor da equipe de manipulação de informações da Alliance for Securing Democracy, organização que monitora desinformação e outros esforços que visam enfraquecer governos democráticos. Para Schafer, o timing das publicações foi curioso.

Algumas semanas depois de os posts serem publicados, em dezembro, autoridades americanas disseram que uma operação de bandeira falsa conduzida pela Rússia poderia ser utilizada como desculpa para colocar tropas russas na Ucrânia, em nome da proteção da população ucraniana de idioma russo.

"Seria concebível enxergar as mensagens russas transmitidas no mês passado como tentativa de criar confusão e incerteza antes da operação russa iminente", disse Schafer. "Ou, em termos clássicos de propaganda política, acusar outros daquilo do qual você mesmo é culpado."

Larissa Doroshenko, pesquisadora da Universidade Northeastern, disse que as táticas russas de desinformação empregadas na Ucrânia utilizam tanto relatos falsos quanto relatos verídicos, mas sem relevância para os acontecimentos atuais, para distorcer narrativas ou ocultar intenções reais.

Doroshenko estudou a desinformação russa em torno dos protestos pró-democracia de 2014 na Ucrânia e descobriu que já naquela época Moscou lançou mão de vários meios para promover narrativas.

"A gente enfoca as redes sociais, mas é uma abordagem que envolve múltiplas plataformas", disse. "São as redes sociais, mas também esses chamados sites de jornalismo, esses sites de propaganda política, que usam linguagem voltada a atrair as pessoas comuns."

Segundo Doroshenko, Putin tomou a Crimeia furtivamente. Mas o acúmulo de tropas russas na fronteira da Ucrânia é tudo menos furtivo. Ela disse que os deslocamentos de tropas russas e as ameaças russas à Ucrânia podem visar tanto a atiçar paixões nacionalistas quanto a calar críticas domésticas às iniciativas de Putin de fechar entidades sem fins lucrativos como a organização de direitos humanos Memorial International ou grupos vinculados ao líder oposicionista russo Alexei Navalni.

"Se você consegue criar um inimigo externo", disse a pesquisadora, "todas essas questões do que vem acontecendo com a sociedade civil na Rússia perdem importância."

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