Rússia investiga radicais de fora do Cáucaso

Moscou suspeita da participação de terroristas não originários de regiões separatistas do sul do país nos atentados que mataram 33 em dois dias

Reuters/O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2014 | 02h05

MOSCOU - O provável envolvimento de russos convertidos ao Islã nos dois atentados suicidas na cidade russa de Volgogrado no domingo e na segunda-feira deu sinais a Moscou de que o extremismo tem conseguido adeptos fora da regiões muçulmanas da Chechênia e do Daguestão, onde a insurgência e o separatismo estão presentes há duas décadas.

Segundo a imprensa local, autoridades suspeitam que uma pessoa identificada etnicamente como russa e convertida ao Islã é a principal suspeita de um dos dois ataques suicidas a bomba que mataram no total 33 pessoas no sul da Rússia. Outro convertido ao Islã é suspeito de fazer a bomba usada para matar sete pessoas na mesma cidade há dois meses.

Especialistas em segurança dizem que os insurgentes têm usado russos para realizar ataques em outras partes do país, tanto pelo simbolismo da conversão deles, quanto pelo fato de a aparência eslava evitar suspeitas. "É uma nova estratégia que temos visto mais frequentemente. É um grande problema para as forças de segurança", afirmou Andrei Soldatov, especialista no tema.

Pavel Pechyonkin, citado pelas agências de notícias russas como suspeito do ataque de domingo, que matou 18 pessoas na estação ferroviária de Volgogrado, era um paramédico na região central da Rússia. Ele se converteu ao Islã, religião da mãe, e se mudou para o Daguestão em 2011, onde se juntou a insurgentes, segundo um vídeo que os seus pais divulgaram na internet, no qual faziam um apelo para que o filho deixasse as armas.

Como resposta, Pechyonkin gravou a sua própria mensagem de vídeo. "Aqui muçulmanos são mortos e sequestrados. Por que devemos seguir esses mandamentos cristãos, quando Alá nos pede que lutemos", indagou.

O presidente Vladimir Putin, que ontem visitou feridos em Volgogrado, reprimiu os separatistas da Chechênia quando assumiu o poder na Rússia há 14 anos. No entanto, a insurgência islâmica se espalhou para o Daguestão. Combatentes têm sido recrutados até do Canadá.

Yekaterina Sokirianskaya, especialista do International Crisis Group, afirma que muitos dos convertidos adotam uma forma fundamentalista do Islã, o que geralmente os colocam em conflito com a família e os tornam mais suscetíveis à radicalização. "Eles são atrativos para os insurgentes", afirma Sokirianskaya.

O esquema de segurança para Sochi, onde serão realizados os Jogos Olímpicos de Inverno em fevereiro, na Rússia, torna um ataque ali muito difícil, segundo especialistas. A maior ameaça em potencial é a ação de um homem-bomba. "Essa é uma tática muito eficaz. Requer pouca preparação, pouco dinheiro e é difícil evitá-la", diz Alexei Filatov, da associação de veteranos de uma força antiterrorista.

Os recentes ataques se dão seis meses depois de dois irmãos chechenos, que moraram no Daguestão, terem se tornado suspeitos pelo atentando a bomba durante a Maratona de Boston, nos Estados Unidos, que matou três pessoas, num sinal que um conflito uma vez visto como remoto pelo Ocidente pode ter consequências em diferentes localidades.

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