Arquivo/Reuters
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Rússia liberta bilionário que desafiou o Kremlin após perdão de Putin

Khodorkovski desembarca na Alemanha um dia depois de o presidente russo anunciar que o perdoaria ‘por razões humanitárias’

O Estado de S. Paulo,

20 de dezembro de 2013 | 09h13

(ATUALIZADA ÀS 21h30) MOSCOU - Solto nesta sexta-feira, 20, por ordem do presidente Vladimir Putin, o mais famoso prisioneiro da Rússia, o magnata Mikhail Khodorkovski, seguiu diretamente para a Alemanha, encerrando dez anos de uma detenção considerada por muitos, na Rússia e no Ocidente, como uma "punição política" contra o bilionário que ousou desafiar o Kremlin.

Khodorkovski deixou a penitenciária IK-7, em uma remota região perto da Finlândia, para encontrar-se com a mãe, que passa por tratamento médico num hospital alemão - o magnata cumpriu o início de sua pena em uma prisão na distante região siberiana de Chita, fronteira com China e a Mongólia. Putin disse ter concedido perdão ao ex-proprietário da gigante do petróleo Yukos por "razões humanitárias", após um apelo de Khodorkovski para que pudesse visitar a mãe doente.

A chancelaria da Alemanha confirmou o desembarque dele no Aeroporto Schoenefeld, em Berlim, ontem à tarde (manhã no Brasil). Hans-Dietrich Genscher, que serviu como ministro das Relações Exteriores alemão nos anos 80, no governo de Helmut Kohl, recebeu Khodorkovski.

Num comunicado postado em seu site depois de chegar em Berlim, o magnata russo insistiu que o pedido de perdão levado a Putin no fim do mês passado não significava nenhuma admissão de culpa. "Estou aguardando muito o minuto em que poderei abraçar os mais próximos e dar um aperto de mão nos amigos e colegas", disse o magnata, segundo o texto publicado ontem.

Ele agradeceu a Genscher pela "participação pessoal" em seu destino - o papel que o ex-ministro alemão desempenhou na libertação, porém, não está claro. Ele diz que atuou a pedido dos advogados do magnata russo, como presidente do German Council on Foreign Relations, um dos principais centros de estudos alemães.

O avião que transportou Khodorkovski até Berlim é de propriedade da empresa alemã de energia OBO Bettermann. A companhia disse ter cedido a aeronave a pedido de Genscher.

SOCHI

Poucos russos e observadores estrangeiros acreditam que Putin tenha concedido o perdão por empatia com o bilionário, que caiu em desgraça após começar a financiar partidos de oposição e agências independentes de mídia na Rússia. A decisão de soltá-lo foi anunciada pelo próprio presidente a jornalistas um dia depois de o Congresso russo ter anistiado milhares de presos - incluindo 30 membros do Greenpeace e 2 integrantes da banda Pussy Riot.

Em menos de dois meses, a cidade russa de Sochi será sede dos Jogos Olímpicos de Inverno e grupos de defesa dos direitos humanos têm intensificado a pressão contra o autoritarismo do governo Putin - o que inclui a legislação que proíbe "propaganda homossexual" e o fechamento de uma agência de notícia independente, a RIA Novosti. Alguns países chegaram a ameaçar boicotar o evento, que custou pelo menos US$ 51 bilhões.

Em seus mais de dez anos atrás das grades, Khodorkovski conseguiu transformar sua imagem entre a maioria dos russos: de um magnata prepotente e tido como intocável, ele passou a ser visto como dissidente respeitado por suas opiniões, publicadas em vários veículos da imprensa da Rússia e da mídia internacional.

A inesperada libertação do empresário que já foi o homem mais rico da Rússia ainda está cercada de mistério. Khodorkovski não revelou se continuará a atuar contra o governo, tampouco se viverá na Rússia.

A prisão do magnata é vista como um marco da era Putin, quando o ex-agente da KGB tentou mostrar que "os anos de festa" de uma pequena elite que se beneficiou das privatizações após o colapso da URSS haviam acabado. Ao chegar ao poder, Putin indicou que não interviria nos negócios dos chamados "oligarcas russos" - os empresários que compraram companhias estatais soviéticas a preços abaixo do mercado - desde que eles não se envolvessem na política. Khodorkovski, dono da maior empresa petrolífera do país, a Yukos, não seguiu o "conselho" de Putin. / REUTERS e AP

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