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Rússia longe da Síria?

Há alguns dias, um avião intriga chancelarias ocidentais. Trata-se de um Iliuchin que aterrissou na sexta-feira retrasada no aeroporto de Domodevo, em Moscou. Ele provinha de Latakia, um porto na costa síria ao norte da capital, Damasco. Desse avião desceram quase cem russos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2015 | 02h04

Esses russos eram parentes de militares e conselheiros. Talvez viessem de um porto situado não longe de Latakia, o Porto de Tartus de grande importância geoestratégica. A Rússia possui uma base naval em Tartus ligada à Frota do Mar Negro. É a única base naval de que a Rússia dispõe fora da Rússia ou de antigas repúblicas soviéticas.

Compreende-se, então, porque este carregamento de russos retornados da Síria coloca em polvorosa os diplomatas ocidentais. Estaria ele significando que Moscou está se afastando de Damasco? Essa é a hipótese que circula. O jornal Asharq Al-Awsat, da esfera saudita, é categórico: "O Kremlin começa a se afastar do regime sírio".

Se essa análise for exata, ela é fundamental. É sabido que Moscou, desde o início dos distúrbios sírios, é o sustentáculo irredutível do regime de Bashar Assad, apesar das matanças que este comete há quatro anos.

Alguns anos atrás, o presidente francês, François Hollande, havia convencido o americano Barack Obama a bombardear as posições do Exército de Bashar Assad, mas o presidente russo, Vladimir Putin, se interpôs rapidamente e conseguiu suspender a ação de Obama, salvando, com isso, o regime sírio. Em 2012, Putin havia defendido Assad perante o G-8: "Não cabe a um estrangeiro decidir quem governa um país".

Putin certamente pensava nele e nas tentativas de "desestabilização" que, segundo o Kremlin, o Ocidente empreendia contra Moscou. Havia um outro elemento: Putin ficou consternado com o desastre que a intervenção francesa provocou na Líbia.

Caso se confirme que a Rússia está se distanciando da Síria, é todo o tabuleiro do Oriente Médio que se abala. Bashar Assad nunca esteve numa posição tão precária, tão perigosa. Ele não apenas suporta o peso dos sírios em revolta, mas enfrenta um ogro que está prestes a engolir a Síria: o Estado Islâmico (EI) ou Daesh, pelas iniciais árabes. A situação desse país outrora próspero que é a Síria é desastrosa.

Como desenvolver uma economia quando a maioria das cidades sírias foi arrasada pelos canhões do próprio Assad? E vale notar que a provável retirada de pessoal militar russo e suas famílias ocorre apenas algumas semanas depois de uma grande derrota: a entrada dos batalhões do EI na prestigiosa cidade de Palmyra. Podem-se associar esses rumores a um encontro que houve alguns dias antes, no dia 12: Putin recebeu o secretário americano de Estado, John Kerry, em Sochi, na costa do Mar Negro.

Segundo especialistas, os dois homens teriam "evocado o depois de Assad". Após esse encontro, o poderoso ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, fez o seguinte comentário: "Estamos convencidos de que para lutar contra a ameaça, é melhor unir os esforços das grandes potências".

Se todos estes fragmentos de informação se confirmarem e se encaixarem, estaríamos presenciando manobras ainda mais ambiciosas: diante da ascensão de perigos extremos, estaríamos assistindo à busca de um novo sistema de relações mais pacíficas entre a Rússia e os Estados Unidos, mas também entre Moscou e uma parte da Europa, após a experiência mal negociada envolvendo a Ucrânia e a Crimeia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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