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Rússia manda sistema de mísseis para sua base na Síria

Comparada a 'Stalingrado', Alepo se transforma na batalha mais decisiva da guerra síria

Jamil Chade - Correspondente / Genebra , O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2016 | 17h09

Alepo corre o risco de se transformar na nova “Stalingrado”. O alerta é da ONU que, no dia seguinte a colapso das negociações diplomáticas entre EUA e Rússia sobre o futuro da Síria, multiplica apelos para que governos voltem à mesa de negociação na esperança de retomar um processo de paz. Para negociadores, a batalha por Alepo se transformou no momento mais decisivo dos cinco anos de guerra na Síria. Nesta terça-feira, Moscou confirmou que enviou ao país no Oriente Médio um sistema de mísseis. 

Na segunda-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, anunciou que estava suspendendo as conversas com Moscou diante da ofensiva do Kremlin sobre a cidade no norte da Síria. 

Em Moscou, o chanceler Serguei Lavrov prometeu continuar negociando. Mas indicou que levou para a Síria pela primeira vez um sistema de mísseis, o S-300, com a meta de proteger sua base no país, em Tartus.

O porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, insistiu que o envio das armas era “puramente com o objetivo de se defender”. “Não está claro o motivo pelo qual o envio do S-300 causou tal alerta em nossos parceiros ocidentais”, disse.  

Hoje, Washington insistia que não havia desistido dos esforços diplomáticos. "Não vamos abandonar o povo sírio e nem a busca pela paz", disse Kerry, em um discurso em Bruxelas, nesta terça-feira. Mas ele voltou a atacar o governo russo por estar "fechando os olhos" diante dos crimes cometidos pelo regime de Bashar Assad em Alepo.  "Onde eles fazem um deserto, eles chamam de paz", declarou o americano, citando o historiador romano Tácito. 

Analistas na ONU admitiram ao Estado que um êxito de Assad em Alepo significaria sua maior vitória na guerra e o daria controle sobre todas as grandes cidades. Mas os grupos rebeldes, apoiados pelo Ocidente e pela Turquia, estão demonstrando que querem resistir. 

A entidade em Genebra recebeu informações de que helicópteros lançaram papeis sobre a cidade, com apelos para que a população se entregue. Assad, nos últimos dias, ainda multiplicou as ofensivas na cidade, na esperança de criar uma situação insustentável para os rebeldes. O centro da cidade também passou a ser alvo de ataques por aviões.

Dividida desde 2012 entre bairros controlados pelo governo e outros por rebeldes, a cidade passou a ser alvo de uma campanha militar ainda apoiada por milícias iranianas e a força aérea russa.  Em 15 dias desde o colapso do cessar-fogo, ativistas apontam que 293 pessoas morreram nos combates, incluindo 20 nesta terça-feira. 

A Organização Mundial da Saúde alerta que o número é ainda maior, com pelo menos 342 mortos e mais de 1,1 mil feridos. Pelo menos 106 crianças morreram nesse período. Diante dos ataques, apenas um hospital na cidade continua a oferecer serviços para lidar com traumas. 

Nos corredores da ONU, mediadores não disfarçavam o desespero em ver como meses de conversas estavam sendo ignoradas diante da nova ofensiva militar. Mas também confessam que o destino de Alepo "pode definifir a guerra". 

Para o alto comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad al-Hussein, os ataques sobre civis em Alepo poderiam ser considerados como "crimes contra a humanidade". Ele sugeriu que o veto russo deveria ser suspenso no Conselho de Segurança para permitir que as violações fossem levadas ao Tribunal Penal Internacional, em Haia.

"Não podemos esquecer que a destruição de cidades como Varsóvia, Stalingrado e Dresden contribuíram para a fundação da ONU", disse Zeid, em referências a locais devastados na 2ª Guerra. "Não podemos abandonar agora Alepo. Não podemos abandonar as milhares de crianças presas na cidade esperando serem massacradas", insistiu.

Nas salas da ONU, diversos governos se debruçavam em alternativas para elaborar um novo cessar-fogo. Uma delas começava a ser examinada pela Turquia e poderia ser oferecida a russos e americanos como uma opção. Nesta quarta-feira, autoridades americanas e europeias se reunirão em Berlim para tentar discutir os próximos passos no conflito.

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