Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP

Rússia mantém canal com antichavista Guaidó

Exposição bilionária de empresas à dívida da PDVSA e baixo custo-benefício do apoio a Maduro fazem Kremlin acenar para oposição

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2019 | 05h00

A bilionária exposição de empresas russas à extensa dívida da PDVSA e o baixo custo-benefício de um apoio militar ao chavismo levaram o Kremlin a adotar cautela na crise venezuelana. Apesar da defesa pública de Nicolás Maduro, autoridades russas têm guardado silêncio sobre a crise desde o fim de janeiro e, nos bastidores, já aceitam abrir canais de diálogo com o opositor Juan Guaidó

“Há mais ou menos um ano, o embaixador russo em Caracas tem tido contatos com a oposição, o que não é normal n a diplomacia russa para a região – que sempre mantém contato com o governo e não com partidos políticos” disse ao Estado o professor de relações internacionais Viktor Jeifets, especialista em relações russas com a América Latina, da Universidade de São Petersburgo. “Há alguns contatos, mas não deve ter havido acordo, porque se fosse o caso, o governo teria adotado um tom mais ameno.”

Esta semana, Dimitri Rosenthal, especialista em América Latina da Academia Russa de Ciências, disse ao jornal britânico The Independent que Moscou já admite fechar um acordo com qualquer governo que esteja em Caracas. “O canal de diálogo já foi aberto, mas ainda existe desconfiança com relação à oposição”, disse Rosenthal. “Para o Kremlin, Maduro ainda é o nome mais confiável para defender seus interesses.” 

Fyodor Lukyanov, um analista ligado à elite do governo russo, também sugeriu na semana passada que o Kremlin anda perdendo as esperanças em Maduro, mas continuaria a apoiar o chavismo até o momento em que os militares decidirem abandoná-lo. “Por pior que seja Maduro, ele é confiável e é considerado um parceiro”, disse Lukyanov, que dirige o Conselho de Política Exterior e Defesa da Rússia, em declaração ao Wall Street Journal. “Não vejo como a Rússia possa se comprometer mais (com Maduro). Estamos muito longe e falta capacidade logística para uma operação substancial. Além disso, economicamente, a Rússia não está em seu melhor momento.” 

Segundo fontes citadas pelo Wall Street Journal, com base em depoimentos de funcionários do Kremlin, a frustração do presidente Vladimir Putin com Maduro aumentou no ano passado, depois que uma delegação russa foi enviada à Venezuela com um plano de estabilização econômica. O governo chavista, porém, achou as medidas drásticas demais e pediu mais dinheiro. 

Este cenário, de acordo com diplomatas russos e líderes antichavistas, levou Moscou a buscar uma aproximação com opositores venezuelanos – ainda que a Rússia negue qualquer aproximação. 

Outros sinais de uma tentativa de aproximação vieram no fim de janeiro, quando Guaidó disse a russos e chineses que a oposição tem mais condições que o chavismo de garantir seus investimentos no país. Durante a crise, Putin telefonou para o chavista apenas uma vez para hipotecar apoio. O chanceler da Rússia, Serguei Lavrov, insiste em uma saída política. À Bloomberg, no entanto, duas fontes do Kremlin reconheceram esta semana que o governo russo está preocupado.

O vice-presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento russo, Vladimir Dzhabarov, afirmou que o tempo corre contra o chavista. “Numa crise econômica, a população deve se virar contra ele”, avaliou.

Jeifets é outro que acredita que dificilmente a Rússia estará disposta a ajudar Maduro como fez com o ditador sírio, Bashar Assad. “A Venezuela é muito longe de Moscou, não há bases russas próximas e defender Maduro prejudicaria a política russa com o restante da região”, acrescenta. “A Rússia está estudando as alternativas. Se houver um acordo que assegure interesses russos na oposição, talvez não apoie abertamente Guaidó, ou tacitamente deixe Maduro de lado.”

Endividada e sem acesso a crédito em razão das sanções americanas, a Venezuela recorreu nos últimos anos à empresa russa Rosneft, chefiada por um aliado de Putin, para refinanciar suas dívidas. Os acordos chegam a US$ 10 bilhões, entre investimentos, empréstimos e até ações da refinaria americana Citgo. “A Rússia entra de vez no negócio do petróleo quando Maduro já estava isolado, por interesses mais geopolíticos do que econômicos”, explica Jeifets. “Os melhores poços estavam com chineses e o petróleo venezuelano não é tão rentável.”

Agora ameaçada, a aliança estratégica entre o Palácio de Miraflores e o Kremlin começou em meados dos anos 2000, quando Hugo Chávez e Putin se aproximaram após o apoio venezuelano ao líder russo na Guerra da Geórgia

“A Rússia começou a ver a Venezuela não como um sócio geopolítico, mas como uma ponte para projetar-se na América Latina”, afirma Jeifets.

Para lembrar: A amizade de Putin e Chávez

Em 2009, quando a Rússia declarou guerra contra a Geórgia, o presidente Vladimir Putin se preparou para o isolamento internacional. Inesperadamente, porém, ganhou o apoio da Venezuela, comandada por Hugo Chávez. Na época, o governo venezuelano reconheceu a independência de dois territórios russos dentro da Geórgia: a Abkházia e a Ossétia do Sul. A manobra fez Chávez entrar no radar do Kremlin e impulsionar sua amizade com Putin. 

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