Rússia não sabe quem prender

Autoridades são condescendentes com nacionalistas agressivos, mas punem energicamente manifestantes liberais

Fred Weir*, O Estado de S.Paulo - Christian Science Monitor

17 de outubro de 2013 | 02h07

Nos vídeos gravados com celulares que circularam online, uma multidão agitada repetia o lema: "A Rússia para os russos!" Pessoas atiravam garrafas e pedras contra a polícia, incendiavam carros, invadiam um shopping center e saqueavam um entreposto de legumes e vegetais num bairro industrial da capital russa.

Foi um dos piores distúrbios ocorridos em Moscou em anos e, na terça-feira, a polícia continuou a deter centenas de pessoas, dois dias depois do acidente. Só que a grande maioria dos detidos não eram cidadãos envolvidos nas agitações, mas o alvo da cólera dos perturbadores da ordem.

Os conflitos do domingo, que destruíram partes de bairros onde vivem famílias trabalhadoras, foram instigados por grupos nacionalistas querendo vingança pelo esfaqueamento de um russo por um homem do Azerbaijão.

O incidente ressalta o que um número crescente de especialistas diz ser a mais perigosa ameaça à estabilidade da sociedade russa sob o governo de Vladimir Putin. Não são os inimigos eleitos pelo Kremlin: liberais, gays, militantes de direitos humanos e organizações não governamentais financiadas por entidades estrangeiras, mas grupos alojados na própria base política do presidente, incluindo nacionalistas, cada vez mais contrariados com o que consideram uma imigração ilegal fora de controle.

"Existe uma situação explosiva que vem fermentando nas relações entre as etnias em Moscou e alguma coisa pode ocorrer a qualquer momento", diz Nikolai Svanidze, conhecido jornalista de TV e membro da Public Chamber, uma reunião de grupos da sociedade civil apoiados pelo Kremlin.

Os distúrbios começaram na noite de domingo em Biryulyovo, bairro do subúrbio de Moscou, quando milhares de pessoas saíram às ruas ao tomarem conhecimento de que um homem russo tinha sido esfaqueado por um "imigrante", expressão utilizada para se referir a algum trabalhador ilegal originário das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central ou do Cáucaso, que abrange lugares como Chechênia, Daguestão, Azerbaijão e Armênia.

A polícia prendeu 380 pessoas durante os distúrbios e, na terça-feira, anunciou que 70 serão indiciados por delitos de menor importância. Pelo menos dois serão acusados de vandalismo, o que pode acarretar em prisão.

De acordo com a polícia, foi identificado o principal suspeito do esfaqueamento, um cidadão do Azerbaijão visto numa gravação feita por uma câmera de segurança. Na terça-feira, a polícia continuou o cerco a "imigrantes" de pele mais escura nos arredores de Moscou e 1.200 foram presos, muitos acusados de violação das leis de imigração ou outras infrações que não têm nenhuma conexão com o ato criminoso. As prisões em massa de imigrantes, que nada têm a ver com os distúrbios, é uma ação simbólica que diz muito sobre a mentalidade das autoridades russas.

A violência social tem sido observada em diversas cidades grandes e pequenas da Rússia nos últimos meses. Há três anos, grupos nacionalistas e hooligans entraram em choque com policiais no centro de Moscou, quando protestavam contra o que afirmam ser a incompetência da polícia no caso da morte de um russo em uma briga com migrantes do Cáucaso. Na época, o presidente Dimitri Medvedev prometeu adotar medidas severas contra esse tipo de violência.

"Os grandes protestos que vimos em 2010 chamaram muita atenção e falou-se muito em solucionar os problemas, mas, em razão do pouco tempo dado pelos nossos políticos ao problema, nada foi feito", diz Nikolai Petrov, cientista político na Escola Superior de Economia em Moscou.

Segundo Petrov, ao não adotar medidas como o aumento dos salários e melhora nas condições no caso dos empregos no setor público para encorajar os russos a assumirem esses trabalhos, as autoridades, na verdade, estão estimulando os trabalhadores imigrantes a aceitarem essas vagas em que o salário é muito baixo.

"Eles protegem os empregadores, mas se aproveitam do preconceito da população, acusando os imigrantes ilegais de todos os problemas. Mesmo Putin aproveitou-se disso durante sua campanha eleitoral", diz Petrov.

Outro exemplo de aplicação dessa política de dois pesos e duas medidas por parte das autoridades russas é o tratamento condescendente dado aos agitadores nacionalistas, que, na maior parte, receberam multas leves, mesmo chocando-se violentamente com a política.

Inversamente, uma dezena de manifestantes de tendência liberal são acusados de "desordens em massa" durante uma manifestação pacífica às vésperas de Putin tomar posse, no ano passado, quando supostamente atiraram garrafas e paralelepípedos contra a polícia antidistúrbio. Alguns podem ser condenados a 13 anos de prisão.

Outro exemplo são as sentenças de prisão de dois anos no caso das duas jovens do grupo Pussy Riot, que encenaram um espetáculo considerado blasfemo numa igreja vazia que não causou nenhum dano. Elas foram acusadas de "vandalismo motivado por ódio religioso", o que acarreta penas de prisão muito mais longas do que as determinadas para os agitadores de Biryulyuovo. Apesar de os vídeos mostrarem muitos deles gritando lemas racistas.

"A questão é que as autoridades consideram esses agitadores nacionalistas bons camaradas que podem ser um pouco agressivos e só precisam ser controlados, mas que voltarão à razão depois de desafogar sua ira", diz Alexei Makarkin, diretor do Center for Political Technologies, de Moscou. "Essas são pessoas que normalmente apoiam as autoridades, então, por que ser duros com elas?"

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Fred Weir é correspondente em Moscou.

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