Rússia não se define sobre apoio à ação dos EUA

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tirou umas férias nesta semana enquanto outros líderes mundiais apresentavam propostas e reservas à resposta dos Estados Unidos aos ataques terroristas da semana passada, deixando Washington e o mundo tentando adivinhar qual será a posição crucial da Rússia. Putin saiu em férias - de trabalho - para o balneário de Sochi, no Mar Negro, onde discutia com seus assessores mais próximos a estratégia que será adotada pela Rússia antes de uma importante viagem que fará à Alemanha na semana que vem. Enquanto isso, o chanceler Igor Ivanov visitava os EUA e prometia pleno apoio aos norte-americanos -, mas o ministro da Defesa Sergei Ivanov disse que não via nenhuma chance de contribuição militar russa.As contradições na política eram evidentes. Na Rússia, no fim das contas, é a voz do presidente que conta. Existiam poucas pistas sobre qual posição Putin adotará. Na noite dedts sexta, a televisão russa mostrou trechos de uma entrevista que Putin concedeu à tevê alemã, na qual ele afirmou que a Rússia estava pronta para cooperar com os EUA "no sentido mais amplo". Mas ele não se aprofundou. "Não recebemos apelos concretos, mas nossos serviços secretos há muito vêem cooperando", afirmou Putin. "A questão é como levar esta cooperação a um novo nível de qualidade. Estamos prontos para isso." Sergei Rogov, diretor do Instituto EUA-Canadá em Moscou, opina que a resposta de Putin ao apelo do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, por um apoio internacional contra o terrorismo é a mais importante decisão a ser tomada pelo líder russo desde sua eleição, 18 meses atrás - e isso pode explicar o silêncio de Putin. Um líder ponderado, o ex-agente da KGB gosta de ter à sua frente todas as opções possíveis e pesá-las cuidadosamente, especialmente quando muita coisa está em jogo. "Pela primeira vez desde 1945, a Rússia e os Estados Unidos têm um inimigo comum. Então existe uma chance para um novo relacionamento", acredita Rogov. Entretanto, Rogov e outros analistas políticos, assim como destacados legisladores russos, advertiram que os EUA não podem contar com o apoio incondicional da Rússia para qualquer tipo de ação que decidam tomar e deixaram claro que a Rússia espera algo em troca por seu respaldo. "Penso que deveríamos ajudar os EUA na prática na luta contra o terrorismo da mesma maneira que eles nos ajudariam em nossa luta contra o terrorismo", afirmou Vladimir Lukin, vice-presidente do Parlamento e ex-embaixador russo em Washington, à rádio Ekho Moskvy. Os russos esperam que os Estados Unidos amenizem suas críticas à campanha militar da Rússia na república separatista da Chechênia. Moscou afirma que luta contra terroristas internacionais na Chechênia. Os russos já se mostram relutantes em apoiar decisões unilaterais dos Estados Unidos. A Rússia deseja que haja um maior envolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU) na definição de uma estratégia antiterrorista e quer que qualquer retaliação tenha base legal - algo que Putin reafirmou na entrevista à tevê alemã."Estou certo de que se os Estados Unidos tentarem atuar sem limites, a Rússia agirá contra", disse Rogov. Algumas propostas dos EUA em discussão, como o uso de antigas bases soviéticas no Tadjiquistão e no Usbequistão para lançar ataques contra o Taleban no Afeganistão, apresentam problemas reais para a Rússia, que dominou por muito tempo esses países. Na entrevista, Putin declarou que qualquer uso de forças armadas de "terceiros países" por parte dos Estados Unidos necessitaria de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Ao permitir que os EUA operem na Ásia Central, a Rússia teme o início de uma nova onda de ataques terroristas em solo russo, o que poderia enfraquecer a influência de Moscou nesta região estratégica, rica em petróleo. "Se Moscou participar ativamente dessas operações, então a Rússia deveria receber uma garantia dos EUA sobre sua própria segurança, já que a Rússia é mais vulnerável a ataques terroristas do que os Estados Unidos - devido a fatores políticos, geográficos e econômicos", comentou Alexei Arbatov, vice-presidente do Comitê Parlamentar de Defesa russo. Rogov disse que a Rússia vai querer ter algum poder de decisão na operação militar ocidental na Ásia Central. Mas a questão é premente, e os Estados Unidos podem não ter a paciência exigida para lidar com pedidos russos. "Os Estados Unidos esperam o apoio da Rússia, mas pensam que esse apoio deve vir na forma de um cheque em branco", afirmou Arbatov. "Acho que esse tipo de relacionamento não vai funcionar."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.