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Rússia nega que tenha bombardeado hospital na Síria

Em meio a troca de acusações, Turquia amplia sua ofensiva militar contra rebeldes curdos sírios

Andrei Netto , CORRESPONDENTE / PARIS

16 de fevereiro de 2016 | 20h21

PARIS - O governo da Rússia negou ontem que tenha bombardeado na segunda-feira quatro hospitais situados no norte da Síria, região sob o controle de grupos rebeldes apoiados pelo Ocidente. Os ataques, que incluíram um centro de saúde da ONG francesa Médicos Sem Fronteira (MSF), deixaram pelo menos 46 mortos. Em meio ao caos, o Exército da Turquia ampliou ontem sua ofensiva militar contra os curdos sírios.

Os ataques aos hospitais ocorreram nas cidades de Maarat al-Numan, na Província de Idlib, e em Azaz, na Província de Alepo, ambos próximos da fronteira com a Turquia. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, negou que a Rússia seja a responsável pelos ataques, e desafiou os críticos a provarem o contrário, insinuando ainda que a responsabilidade seria dos Estados Unidos ou da coalizão ocidental.

Segundo o embaixador da Síria em Moscou, Riad Haddad, a responsabilidade pelos ataques é dos EUA. “O hospital foi destruído por aviões americanos. As forças aéreas da Rússia não têm nada a ver”, acusou o aliado do Kremlin.

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, há dezenas de feridos além dos 46 mortos. “Se esses estabelecimentos foram atingidos de forma deliberada e intencional, pode ser um crime de guerra”, disse o porta-voz do Alto Comissariado, Rupert Colville, que não fez acusações sobre os ataques.

Para Françoise Bouchet-Saulnier, diretora jurídica do MSF, os quatro ataques não foram acidentes, nem danos colaterais. Embora tenha reunido testemunhos que apontam caças da Rússia e da Síria como responsáveis, a organização prefere aguardar as investigações. “É preciso estabelecer os fatos. Quem tinha aviões voando sobre estes vilarejos na hora dos ataques? Que tipo de bombas caíram e a quem pertenciam? Quais eram as intenções destes ataques? O hospital era o alvo?”, questionou ao Estado. “Estamos em uma guerra de propaganda em que todo mundo acusa todo mundo. Ninguém fala de erro. Logo, só pode ser um ataque deliberado.”

Retórica. O primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu, acusou Moscou de realizar ataques na Síria sem distinguir entre terroristas, opositores políticos, civis e crianças. Ontem, o Exército turco entrou em seu quarto dia de bombardeios a posições curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG), grupo armado próximo ao Partido da União Democrática (PYD), que teria a ambição de organizar um Estado curdo autônomo junto à fronteira com a Turquia. 

Davutoglu pediu ao Ocidente que lance uma intervenção terrestre no país. O chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, ressaltou que a Arábia Saudita, o Catar e países europeus estariam dispostos a lançar a ofensiva, mas que a decisão depende da coalizão internacional, que é liderada pelos Estados Unidos. Até agora, o governo de Barack Obama tem rejeitado o envio de tropas terrestres. 

Em meio à escalada militar, Staffan de Mistura, emissário da ONU para as negociações de paz, esteve em Damasco para conversar com o regime de Bashar Assad sobre a entrada de ajuda humanitária internacional na Síria. 


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