Ozan Kose / AFP
Ozan Kose / AFP

Rússia ocupa vazio deixado pelos EUA e amplia presença no Oriente Médio

Forças russas começam a patrulhar norte da Síria em conjunto com tropas de Assad, em um movimento que cria oportunidades para Vladimir Putin se apresentar como mediador confiável

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 21h52

MOSCOU - Forças militares da Rússia começaram nesta terça-feira, 15, a patrulhar o norte da Síria, região abandonada pelas tropas americanas. O movimento redesenha o equilíbrio de poder no Oriente Médio, reflete a repentina perda de influência dos EUA e abre uma nova oportunidade para os russos se apresentarem como mediadores confiáveis, garantindo novos negócios e avançando seus interesses estratégicos.

Os EUA tinham duas bases militares na região, mas o presidente Donald Trump ordenou, na semana passada, a retirada dos soldados americanos, abrindo caminho para uma ofensiva da Turquia contra os curdos na Síria. A medida foi considerada uma traição à milícia curda que apoiou a luta dos EUA contra o Estado Islâmico, causou uma nova onda de refugiados, aumentou o temor de ressurgimento do jihadismo e permitiu que as forças de Bashar Assad, ditador sírio apoiado por Moscou, recuperassem território sem disparar um tiro.

Para a Rússia, o redesenho político da região, que até bem pouco tempo era praticamente um protetorado americano, traz dois benefícios imediatos. Primeiro, fortalece Assad, aliado de Moscou. Depois, dá ao presidente Vladimir Putin a chance de apresentar a Rússia como a escolha ideal para quem busca um parceiro fiel no Oriente Médio. “O que está acontecendo agora é um nó muito complicado sendo desatado”, diz Aleksander Shumilin, analista do Instituto da Europa, da Academia de Ciências de Moscou. “É um presente inesperado para Putin.”

O Kremlin vem trabalhando duro para colocar a Rússia como uma alternativa aos EUA na região. Nesta terça, enquanto tropas americanas abandonavam a base de Manbij, Putin concluía uma visita aos Emirados Árabes, depois de uma recepção calorosa obtida na Arábia Saudita, no dia anterior – os dois países são aliados de longa data de Washington, mas começaram a questionar recentemente a lealdade dos americanos. 

“A Rússia é minha segunda casa”, disse Mohamed bin Zayed, príncipe herdeiro e governante de facto dos Emirados. “Estamos conectados por uma profunda relação estratégica.” Putin voltou nesta terça para Moscou com um acordo de US$ 1,3 bilhão para a venda de armas ao país.

No Oriente Médio, Assad ainda é o grande aliado de Putin, que fez de tudo para mantê-lo no poder, desde enviar ajuda militar até o uso de uma diplomacia criativa. Na ONU, a Rússia tem bloqueado as tentativas de condenar o regime pelo uso de armas químicas contra civis. Além disso, ao se aproximar de Irã e Turquia, Putin conseguiu driblar os esforços ocidentais para negociar a paz na Síria. 

Segundo Shumilin, a Turquia é um dos objetivos geopolíticos de Putin. Ao cortejar o presidente Recep Tayyip Erdogan, Moscou pretende afastar os turcos da Otan, uma resposta ao avanço da aliança atlântica na direção da velha esfera de influência soviética.

Nesta terça, o ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigu, afirmou que o Exército russo já está patrulhando uma linha divisória entre as forças turcas e do Exército da Síria. Alexander Lavrentyev, enviado russo à região, garantiu que Putin e Erdogan estão em contato constante para evitar um choque direto – papel que antes cabia aos EUA.

Um dos pontos de atrito mais importantes é a cidade de Manbij, que era guardada pelos americanos e a Turquia prometeu capturar. As forças sírias se moveram rapidamente para ocupar o espaço deixado pelos EUA. Nesta terça, os russos ocuparam a base, que parecia ter sido abandonada às pressas, e bravatearam pela internet.

“Manbij é nossa”, postou a Anna News, um site pró-Kremlin que acompanha as tropas russas na Síria. Nas imagens, roteadores abandonados, cabos caindo do teto, um tubo de batatas fritas na mesa, um armário cheio de caixas de cereal e quatro geladeiras carregadas de refrigerantes. “Eles acharam que ficariam aqui por muito tempo”, disse o jornalista Oleg Blokhin. 

Segundo especialistas, já era previsto que a saída dos EUA da região encorajasse o avanço de russos e iranianos, ambos aliados de Assad, e aumentasse o risco de ressurgimento do Estado Islâmico, que havia sido derrotado pelos curdos. No entanto, a política externa errática de Trump tem facilitado o trabalho de Putin de reconstruir o status da Rússia como um poder ressurgente mundial no momento em que aumenta a desconfiança com relação aos EUA. / NYT e AFP

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