Rússia prende piratas que capturaram navio

Sem disparar um tiro, Marinha russa retoma cargueiro na costa africana; sequestradores pediam US$ 1,5 milhão

AP, AFP e Reuters, MOSCOU, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

Chegou ao fim ontem o mistério do navio com tripulação russa que "desapareceu" no Oceano Atlântico durante duas semanas. Na noite de segunda-feira, a Marinha russa resgatou o cargueiro Arctic Sea próximo de Cabo Verde, na costa africana, e prendeu oito sequestradores. Foi o primeiro caso de pirataria em águas europeias desde o século 17.Ao mesmo tempo, autoridades marítimas dos países envolvidos nas buscas admitiram que sabiam do paradeiro do cargueiro, mas mantiveram silêncio para evitar um desfecho trágico. A Marinha de Malta, onde o Arctic Sea é registrado, afirmou que o "navio nunca desapareceu para valer". Os piratas entraram em contato com a seguradora da embarcação no dia 3 e pediram um resgate de US$ 1,5 milhão, de acordo a agência de notícias russa Interfax. "A pessoa que nos ligou ameaçou matar a tripulação e afundar o navio", afirmou Vladimir Dushin, vice-presidente da seguradora finlandesa Renaissance, que informou Moscou sobre o sequestro.O cargueiro, que levava madeira, partiu da Finlândia dia 21 de julho, com destino à Argélia. Na costa da Suécia, ele foi abordado por homens armados e levado para o Atlântico. Sexta-feira, a imprensa portuguesa afirmou que o cargueiro havia sido localizado na sua ex-colônia Cabo Verde, mas a notícia foi desmentida por Moscou.Os governos da Finlândia, de Malta e da Suécia "concordaram em não divulgar nenhuma informação importante, para não pôr em risco a vida da tripulação", segundo comunicado publicado ontem. CARGA SECRETAEspecialistas em segurança marítima fizeram nos últimos dias todo o tipo de especulação sobre o que teria ocorrido com a embarcação. Alguns sugeriram que teria ocorrido algo mais sofisticado que pirataria: o navio estaria carregando uma carga secreta - possivelmente material nuclear - ou estaria envolvido com espionagem. O sequestro de navios por piratas é comum na costa africana, especialmente na Somália. No entanto, é praticamente inexistente em águas europeias - o que aumentava o mistério e o interesse sobre o caso.Os sequestradores - cidadãos da Rússia, Estônia e Letônia - foram presos sem que houvesse troca de tiros, informou Moscou, acrescentando que os 15 tripulantes passam bem.O ministro da Defesa russo, Anatoly Serdyukov, afirmou que os piratas entraram no navio sob o pretexto de que estariam com problemas em seu barco inflável. Já havia sido divulgado que os sequestradores se passaram por policiais. Ele informou que o bando forçou a tripulação a desligar o equipamento de navegação do cargueiro.Quando a seguradora confirmou a captura, o Arctic Sea já havia passado pelo Canal de Dover, entre a Grã-Bretanha e a França, no local onde o navio fez seu último contato por rádio.Para o enviado russo na Otan, Dmitry Rogozin, "foi uma operação brilhante, na qual a falta de informação foi usada intencionalmente para não atrapalhar o trabalho de resgate da Marinha". Mas se o mistério do paradeiro do Arctic Sea foi esclarecido, dúvidas sobre os meandros de seu "sumiço" continuam. O especialista britânico Nick Davis disse que a história completa pode nunca vir à tona, em parte porque Moscou está minimizando o caso."Esse é um incidente sem precedentes, cujos detalhes um dia vão ser transformados em um filme de Hollywood", disse porta-voz da Comissão Europeia, Martin Selmayr.

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