'Rússia quer influenciar sem se responsabilizar'

Decisão de Putin de negociar com presidente ucraniano está ligada à expectativa de novas sanções contra seu país

RENATA TRANCHES, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2014 | 02h00

Em visita a São Paulo, o especialista em Rússia da consultoria Eurasia Group Alexander Kliment afirma, em entrevista ao Estado, que Moscou não busca anexação de regiões do leste da Ucrânia, mas não abre mão de manter influência no país.

Como o sr. analisa as tensões na Ucrânia nas últimos dias?

A retórica da Rússia ficou mais leve, de certa forma, mas suas ações no terreno ficaram mais sérias. Nessa crise, é importante prestar atenção não ao que se diz, mas ao que se faz de fato. O objetivo fundamental dos maiores envolvidos, Rússia e Ucrânia, ainda estão muito longe de ser alcançados.

Quais são eles?

A Rússia quer assegurar um controle permanente sobre a orientação política e econômica ucraniana. E a maneira como tenta fazer isso é fomentar a instabilidade no leste da Ucrânia o suficiente para enfraquecer Kiev política e economicamente até o ponto em que aceite fazer concessões.

Quais são essas concessões?

A Rússia deseja elevar a descentralização da estrutura ucraniana de uma maneira que dê a ela controle indireto sobre a economia e a política do país, fazendo da Ucrânia um fantoche.

Apoiando a insurgência nas regiões do leste?

Moscou não quer a responsabilidade de anexar o leste ucraniano, como na Crimeia, mas sim a influência sobre a região. A ideia, da perspectiva russa, é um tipo de federalização que dê às regiões da Ucrânia algum nível de controle sobre as políticas externa e econômica, o que basicamente daria à Rússia o controle sobre esses temas. A Rússia quer influenciar sem se responsabilizar.

E quanto ao presidente ucraniano, Petro Poroshenko?

O presidente Poroshenko não pode dar isso a Moscou. Ele está sob uma grande pressão do próprio eleitorado, que quer vê-lo combater o que chama de invasão russa, em primeiro lugar. Eles querem também que o presidente comece a recuperar a economia do país. Assinar um acordo de paz com a Rússia agora vai basicamente transformar o leste ucraniano em um protetorado da Rússia, o que seria visto como uma derrota política para o presidente.

O que está em risco para ele? Haverá eleições parlamentares em outubro nas quais Poroshenko está tentando ajudar seu partido, que não tem representação agora, por ser uma legenda nova. Assinar um acordo de paz com a Rússia poderia, na verdade, congelar esse conflito em favor da Rússia, o que seria politicamente perigoso para ele.

O conflito então está em um impasse?

É um grande problema. A Rússia quer a descentralização, a Ucrânia não pode concedê-la. O desafio para que acabe bem para Petro Poroshenko é que ele precisa vencer no leste. Mas para terminar a favor do presidente russo, Vladimir Putin, tudo o que Moscou tem de fazer é não ser derrotado na região.

A Rússia diz que não pode assinar um cessar-fogo porque não está envolvida no conflito.

Desde o início desse conflito a Rússia tem tentado criar uma "negação plausível" sobre seu envolvimento na crise no leste da Ucrânia. Mas está se tornando cada vez mais claro que isso não é verdade. Há cada vez mais provas do seu envolvimento e influência diretos sobre os rebeldes para pressionar um cessar-fogo.

O fato de a União Europeia discutir novas sanções influenciou a decisão de Putin de negociar com Poroshenko ontem?

As duas coisas estão diretamente ligadas. Faz parte da estratégia russa durante essa crise ucraniana testar a União Europeia e os EUA para ver quão longe ela pode ir sem encorajar uma reação grave. Isso tem muito a ver como as posições que estão divididas. Europa e EUA não querem chamar o que a Rússia fez na semana passada de uma invasão, pois isso demandaria uma escalada das sanções e tornaria ainda mais difícil encontrar uma solução pacífica para o conflito.

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