Rússia reconhece Ossétia do Sul e Abkázia e agrava crise com Ocidente

EUA e União Européia se irritam com decisão do Kremlin de referendar independência de províncias da Geórgia

AP, Reuters e NYT, Moscou, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

A Rússia reconheceu ontem formalmente a independência das províncias separatistas da Geórgia - Ossétia do Sul e Abkázia -, e irritou o governo americano e os principais líderes da União Européia. A decisão foi anunciada pelo presidente russo, Dmitri Medvedev, um dia depois de as duas câmaras do Parlamento russo terem aprovado uma resolução que pedia pelo reconhecimento. "Essa não é uma escolha fácil, mas é a única chance de salvar a vida das pessoas", disse Medvedev.O líder russo ainda provocou o Ocidente ao dizer que a Rússia não tem medo de nada, nem mesmo de uma nova Guerra Fria, e disse que os líderes ocidentais enfraqueceram seu próprio argumento sobre a integridade territorial da Geórgia ao terem apoiado, em fevereiro, a declaração unilateral de independência de Kosovo, que se separou da Sérvia. "Nosso reconhecimento não é diferente do de outros Estados que reconheceram Kosovo."Apesar de ser improvável que outros países endossem a iniciativa russa, a medida aumentou a tensão entre Moscou e os aliados ocidentais da Geórgia. O presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, acusou a Rússia de querer "anexar" as duas províncias. Segundo ele, a decisão de Medvedev comprovou que a invasão da Geórgia por soldados russos no início do mês fazia parte de um plano premeditado para "redesenhar" o mapa da Europa.Já Medvedev afirmou que o presidente georgiano "forçou" a resposta militar russa ao tentar recuperar, pela força, a Ossétia do Sul. "Saakashvili optou pelo genocídio para satisfazer seus planos políticos", disse Medvedev, que instruiu a chancelaria russa a iniciar discussões para estabelecer relações diplomáticas com as regiões.NOVA GUERRA FRIAApós fazer o polêmico reconhecimento, Medvedev disse que, se o Ocidente quiser preservar boas relações com Moscou, entenderá a decisão russa. "Não temos medo de nada, mesmo da perspectiva de uma nova Guerra Fria." Em entrevista à rede de TV CNN, o líder russo disse que Moscou não tem planos de fazer intervenções militares em outros conflitos em andamento nas ex-repúblicas soviéticas. No entanto, fez um alerta. "A Rússia é um Estado que tem de proteger seus interesses ao longo de sua fronteira."O secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, condenou a ação russa, afirmando que a decisão coloca em dúvida o compromisso de Moscou em estabelecer a paz e a segurança no Cáucaso. O presidente americano, George W. Bush, disse que a Ossétia do Sul e a Abkázia fazem parte da Geórgia e devem continuar assim. "A ação da Rússia apenas exacerba as tensões e complica as negociações diplomáticas", afirmou Bush. "Essa decisão é inconsistente com diversas resoluções do Conselho de Segurança da ONU, que a Rússia votou a favor no passado, e inconsistente com o acordo de cessar-fogo assinado pelo presidente Medvedev." A França, que tem a presidência rotativa da União Européia, convocou uma reunião de líderes do bloco para discutir a crise. Em nota, a UE afirmou que a decisão russa é contrária aos princípios de independência, soberania e integridade territorial da Geórgia.

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