Rússia rejeita acusação dos EUA de espionagem

Segundo Moscou, governo americano age 'como nas histórias apaixonadas de espiões da Guerra FriaPutin pede que crise não afete relação bilateral

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE

WASHINGTON

A prisão de 11 supostos espiões russos pelo FBI, na segunda-feira, provocou atrito nas relações entre Washington e Moscou apenas cinco dias depois do encontro entre os presidentes americano, Barack Obama, e russo, Dmitri Medvedev. Em nota divulgada ontem, a chancelaria russa qualificou a acusação como "sem fundamento" e acusou os EUA de agir como "nas histórias apaixonadas de espiões da Guerra Fria".

Ao final de sete anos de investigações, o FBI identificou e prendeu dez "espiões" russos enviados a cidades dos EUA no final dos anos 90 pela SVR, uma das agências de inteligência de Moscou. Eles deveriam recrutar fontes nos círculos políticos dos EUA. Também foi presa a jornalista peruana Vicky Peláez, colunista do jornal La Prensa, de Nova York, e o marido dela, Juan Lázaro. Ambos foram acusados de vender informações ao serviço de espionagem russo.

O processo criminal aberto na Corte do Distrito Federal em Manhattan registrou situações típicas de filmes de espionagem. Os autos descrevem como dois dos espiões esbarraram-se para trocar sacolas cor de laranja em uma estação de trem em Nova York, trouxeram detalhes sobre os passaportes falsificados - um deles, em nome de um canadense morto havia anos - e revelaram como os russos enterraram um pacote de dinheiro.

Mas nenhum deles foi processado por espionagem. Todos respondem por conspiração, crime punido com até 5 anos de prisão, e nove são acusados de lavagem de dinheiro. O FBI não informou se todos os envolvidos na investigação foram presos.

Um dos mais famosos desertores da antiga União Soviética, Oleg Gordievski, disse à agência de notícias Associated Press que 50 a 60 casais de espiões russos continuam a atuar nos EUA. Ex-vice-diretor da KGB em Londres, Gordievski afirmou ainda que, com base em sua experiência, o presidente Medvedev "deve saber o número (total) e quantos estão em cada país, mas não seus nomes". Ele estima que a Rússia tenha cerca de 400 funcionários de inteligência declarados trabalhando em suas representações nos EUA.

Ex-agente da KGB, o premiê russo, Vladimir Putin, queixou-se ao ex-presidente americano Bill Clinton, que ontem visitava Moscou. "Você veio a Moscou no momento certo. Sua polícia agarrou e prendeu pessoas. Realmente espero que as realizações positivas que fizemos nas nossas relações não sejam prejudicadas", disse Putin a Clinton.

Medvedev, que há cinco dias foi arrastado por Obama a uma lanchonete de Washington para almoçar hambúrguer, manteve-se em silêncio. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, afirmou que o caso de espionagem não foi mencionado no encontro de Obama e Medvedev. Ele indicou que os EUA não repetirão a reações do passado a casos como esse - como a expulsão de funcionários da embaixada russa em Washington. As relações bilaterais, insistiu ele, não serão afetadas por esse tema, que é exclusivamente de aplicação da lei.

Traidores famosos

Julius e Ethel Rosenberg

Sentenciados à morte em 1953 por passar à URSS segredos atômicos. Eles teriam sido recrutados pelo legendário "coronel Abel" (Vilyam Genrikhovich Fisher), preso pelo FBI na investigação que ficou conhecida como "o caso da moeda oca"

Lona e Morris Cohen

Montaram uma rede de informação com servidores públicos americanos. O casal fugiu para a URSS e reapareceu anos depois na Grã-Bretanha, onde foi preso, em 1961

Aldrich Ames

Analista de contra-inteligência da CIA, forneceu a Moscou, de 1985 a 1994, o nome de dezenas de agentes soviéticos que passavam informações para os EUA. Pelo menos dez deles teriam sido executados. Cumpre prisão perpétua na Pensilvânia

Robert Hanssen

Preso em 2001, ex-agente do FBI passou informações à inteligência soviética e russa por 22 anos. Cumpre prisão perpétua na Virgínia

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