Rússia rejeita entregar aos EUA delator de rede para espionar cidadãos comuns

Em claro desafio aos EUA, a Rússia informou ontem que não extraditará Edward Snowden, o técnico de computação que revelou um sistema de espionagem americano que monitora milhões de cidadãos em todo o mundo. A decisão foi apresentada pelo próprio presidente Vladimir Putin, irritado com a pressão de Washington e a acusação de autoridades americanas sobre o interesse russo em manter Snowden sob sua custódia.

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2013 | 02h01

O americano, informou Putin à imprensa, está na área de trânsito do aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, à espera do embarque para o país onde será asilado. Não teria, portanto, passado pelo controle de imigração e ingressado formalmente em território russo, como assinalara antes o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov. Putin insistiu ainda que as agências de segurança russas "estão nem estarão ocupadas com ele".

"Sr. Snowden é um homem livre. O quanto antes ele chegar a seu destino final, melhor para nós e para ele", afirmou Putin, em entrevista coletiva na Islândia. "No território da Federação Russa, o sr. Snowden, graças a Deus, não cometeu nenhum crime. Quanto à questão da extradição, nós só podemos enviar estrangeiros de volta quando temos acordos internacionais relevantes sobre extradição com seus países. Com os EUA, não temos tal acordo."

As declarações de Putin e de Lavrov repercutiram, em parte, a estratégia de enfrentamento adotada pelo governo americano no dia anterior. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, acusara Snowden de ter como motivação arruinar a segurança nacional americana ao escolher a China, a Rússia e o Equador como "protetores".

O secretário de Estado, John Kerry, havia alertado Moscou que suas relações com Washington seriam "profundamente afetadas" se houvesse ajuda russa ao plano de fuga de Snowden. O americano, que chegou a trabalhar na CIA, era funcionário de uma empresa que prestava serviços à Agência de Segurança Nacional quando denunciou o sistema de monitoramento a um jornalista do Guardian.

Senadores haviam apontado o interesse russo em deter o americano para extrair mais informações sobre o sistema de espionagem dos EUA. A senadora democrata Dianne Feinstein disse que Snowden tem mais de 200 documentos secretos, aos quais os russos teriam interesse.

"Nós consideramos que a tentativa de acusar a Rússia de violar as leis dos EUA, e até de executar algum tipo de conspiração, vieram acompanhadas por ameaças absolutamente infundadas e inaceitáveis", reagiu Lavrov.

Kerry recuou ontem e afirmou que os EUA "não estão procurando a confrontação". Na Casa Branca, Carney saiu de cena e, em seu lugar, entrou a porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Caitlin Hayden, com um discurso mais cordial. Caitlin afirmou que o governo americano concorda com Putin, quando ele disse que não pretende ver esse tema ter impacto negativo nas relações.

Ela argumentou, no entanto, que a Rússia tem "clara base legal" para expulsar Snowden para os EUA "sem demora", uma vez que o americano teve seu passaporte revogado e é procurado pela polícia por crime de traição nacional. "Nós pedimos ao governo russo que expulse o sr. Snowden sem demora", disse Caitlin.

Ofensiva republicana. O senador republicano Lindsay Graham enviou carta ao embaixador russo em Washington para apelar pela prisão e devolução de Snowden aos EUA. "O caso de Snowden é um teste importante do relançamento das relações dos nossos dois países", argumentou.

O deputado Paul Ryan, candidato republicano a vice-presidente na eleição de 2012, disse ser o episódio uma demonstração da "fraqueza" da Casa Branca e uma ameaça à credibilidade americana no exterior.

"Esse caso revela um governo que se mostra cada vez mais incompetente a cada dia", afirmou Ryan à rede de televisão CBS. "Se não somos capazes de convencer nossos aliados e outros países, isso mostra que a nossa credibilidade não vai bem. Não ajuda a nossa imagem", completou.

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