Shamil Zhumatov/Reuters
Shamil Zhumatov/Reuters

Rússia rejeita envolvimento em ataque a opositor

Kremlin diz que médicos alemães se apressaram em diagnóstico, enquanto aumenta a pressão internacional por uma investigação

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2020 | 23h35

MOSCOU - O Kremlin rejeitou nesta terça-feira, 25, os resultados dos exames que indicaram que Alexei Navalni, conhecido opositor de Vladimir Putin, foi envenenado. As autoridades russas também disseram não haver motivo para investigar o caso, já que o diagnóstico alemão não é conclusivo. Ao mesmo tempo, o governo russo viu aumentar a pressão internacional por uma investigação independente.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que o hospital Charité, de Berlim, que fez os exames e onde Navalni está internado, não apontou a substância que contaminou o opositor, que passou mal em um voo da Sibéria para Moscou. Para Peskov, os médicos alemães estão “se apressando” em usar a palavra envenenamento. “É preciso haver uma razão para uma investigação. No momento, tudo o que vocês e eu vemos é que o paciente está em coma”, afirmou Peskov.

De acordo com o porta-voz, se um envenenamento for estabelecido de forma definitiva como a causa, uma investigação será iniciada. “Se a substância for identificada e se alguém determinar que foi um envenenamento, então, é claro, isso será uma razão para uma investigação.”

Peskov disse também que qualquer insinuação de que Putin esteja envolvido no possível ataque a Navalni é “conversa fiada” que o Kremlin não levará a sério e não responderá. “A análise de nossos médicos e a dos médicos da Alemanha concordam por completo com os sintomas. Mas as conclusões são diferentes”, disse.

A equipe médica em Omsk, onde Navalni ficou hospitalizado por dois dias, disse que não havia evidências de que ele foi envenenado – diagnóstico que a Rússia agora usa para justificar sua decisão de não investigar o caso.

No entanto, médicos alemães suspeitam que o opositor russo teria sido contaminado por novichok, substância neurotóxica desenvolvida pela União Soviética. Em altas quantidades, causa vômitos, dores de cabeça, alucinações e pode matar. 

Aliados do opositor russo disseram que formalizaram um pedido para que uma investigação criminal fosse aberta pelo Comitê Investigativo da Rússia e autoridades na cidade siberiana de Omsk, no mesmo dia em que Navalni foi internado, na quinta-feira, mas o pedido foi ignorado. “A decisão de abrir um processo criminal é tomada em três dias, de acordo com a lei. O prazo terminou no domingo”, disse Kira Yarmysh, porta-voz de Navalni, no Twitter.

Pressão internacional

A pressão por uma investigação aumentou hoje, com líderes mundiais pedindo à Rússia que apure o caso. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, defendeu uma investigação independente. “Os EUA estão preocupados com as descobertas preliminares de especialistas e médicos alemães de que o opositor Alexei Navalni foi envenenado”, afirmou, Pompeo, que está em viagem no Oriente Médio. “Se as denúncias se confirmarem, os EUA apoiam uma ampla investigação e estão disponíveis para colaborar.”

No Twitter, a ministra das Relações Exteriores da Suécia, Ann Linde, disse hoje que as “circunstâncias a respeito do envenenamento de Navalni precisam ser esclarecidas por uma investigação independente”. Na segunda-feira, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, já havia pedido à Rússia que abrisse uma investigação e responsabilizasse os autores. Mais tarde, no mesmo dia, Josep Borrell, chefe da diplomacia da União Europeia (UE), reiterou o apelo de Merkel.  

O jogo duplo de Merkel e Putin 

O caso de Alexei Navalni piorou as relações entre Rússia e Alemanha. A agitação na Bielo-Rússia já colocava os dois países em rota de colisão – Vladimir Putin apoia o presidente Alexander Luka-shenko, alvo de protestos, enquanto Berlim critica a prisão de manifestantes. 

No entanto, ao mesmo tempo, russos e alemães precisam colaborar para terminar a obra do gasoduto Nord Stream 2, que levará gás da Rússia para a Europa. “A Alemanha tenta não vincular questões diferentes”, disse Marcel Dirsus, do Instituto de Política de Segurança, de Kiel. “Mas é impossível, pois tudo faz parte de um quadro maior.” O impasse, segundo ele, coloca Merkel em uma situação difícil, incapaz de pressionar demais Putin. / WP, AFP, REUTERS

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