Rússia retira embaixador da Geórgia e amplia crise entre os dois países

As já tensas relações entre a Rússia e a Georgia chegaram a seu nível mais crítico em anos nesta quinta-feira, depois que o Kremlin reagiu com dureza à detenção de cinco militares russos acusados de espionagem pelas autoridades georgianas. Os oficiais foram detidos na quarta-feira, provocando duras condenações por parte do ministro da Defesa da Rússia, que classificou a Geórgia de Estado "bandido". Além da repreensão verbal, Moscou convocou seu embaixador em Tbilisi para consultas, anunciou a retirada de seus diplomatas e respectivas famílias do país e convocou uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU para denunciar a detenção dos militares.Em conversa com o embaixador americano em Moscou, um funcionário do alto escalão do Ministério das Relações Exteriores da Rússia disse que a "provocação" da Georgia ameaça não apenas as relações bilaterais, mas a segurança regional como um todo. O funcionário acrescentou que Moscou "tem o direito de esperar a compreensão e apoio de seus parceiros americanos".As relações bilaterais entre a Rússia e a Georgia estão tensas devido a uma tentativa da Geórgia de ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e ao suposto apoio da Rússia a rebeldes separatistas georgianos.Apesar da virulência da reação russa, as autoridades georgianas anunciaram que ainda procuram por um sexto militar, que estaria escondido dentro do quartel-general russo em Tbilisi, a capital do país. O prédio foi cercado por policiais.Segundo o ministro do Interior georgiano, Vano Merabishvili, documentos serão publicados mostrando que os militares russos detidos estavam "realizando atividades de inteligência".De acordo com o relato de Merabishvili, os militares estavam coletando informações sobre as relações da Georgia com a Otan. Além disso, a infra-estrutura portuária e ferroviária do país, assim como dados sobre os partidos de oposição e do Exército também estavam na mira dos espiões russos. "Nós neutralizamos um grupo perigoso", disse Merabishvili, que também relacionou os cinco militares a um ataque contra a cidade de Gori. Três policiais morreram e dezenas ficaram feridas no incidente.RetiradaO Ministério das Relações Exteriores da Rússia anunciou que Moscou decidiu promover uma "retirada parcial de pessoal russo na Geórgia e seus familiares em vista da crescente ameaça à segurança deles". A retirada, acrescentou, começará nesta sexta-feira e envolverá aviões do Ministério de Situações Emergenciais. O ministério também aconselhou a todos os russos para evitarem viagens à Geórgia.Mikhail Svirin, porta-voz da embaixada russa na Geórgia, disse que o embaixador Vyacheslav Kovalenko, alguns funcionários e as famílias de todos diplomatas deixarão o país na sexta-feira.Mais cedo, a embaixada russa havia interrompido por tempo indeterminado a concessão de vistos a cidadãos georgianos.Por sua vez, o presidente da Georgia, Mikhail Saakashvili, criticou a reação russa, classificando-a como "histérica". "O pessoal russo e seus familiares não enfrentam absolutamente nenhuma ameaça aqui."As relações entre Moscou e Tbilisi têm se tornado cada vez mais tensas depois da Revolução Rosa de 2003, que levou Saakashvili ao poder. Uma das promessas de campanha do presidente era retirar a Geórgia da órbita russa e aproximá-la dos Estados Unidos.SeparatismoAutoridades georgianas têm acusado a Rússia de apoiar separatistas nas províncias de Abkházia e de Ossétia do Sul, e de tentar minar o governo de Saakashvili - alegações estas negadas pelo Kremlin.O ministro da Defesa russo, Sergei Ivanov, considerou absurdas as acusações de espionagem contra os oficiais e exigiu a imediata libertação deles. "Não ficaria surpreso se os georgianos apresentarem contra eles acusações de quererem roubar o sol do céu", ironizou."Tudo isso visa provocar a situação e elevar o grau de escalada ao nível máximo a fim de desviar a atenção dos problemas que existem na Geórgia", avaliou. "A Rússia irá reagir adequadamente e com responsabilidade", assegurou.Mais tarde, numa viagem à Eslovênia, ele disse que aconselhou todos os militares russos e suas famílias a partirem. "O banditismo na Geórgia assumia uma escala estatal", afirmou.A Rússia mantém duas bases militares na Geórgia, herança da era soviética. Uma deve ser fechada em 2007 e a outra, um ano depois.Texto ampliado às 19h10

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.