Satellite image ©2022 Maxar Technologies via AP
Satellite image ©2022 Maxar Technologies via AP

Rússia diz ter retirado algumas tropas da fronteira com a Ucrânia; Otan não vê sinal de recuo

Ministério da Defesa russo diz que enviou de volta às suas bases alguns soldados e equipamentos militares; comando da Otan vê anuncio com otimismo, mas não vê sinais reais de redução da presença militar

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 06h53
Atualizado 15 de fevereiro de 2022 | 15h41

MOSCOU - O Ministério da Defesa russo disse nesta terça-feira, 15, que algumas tropas estão sendo retiradas da fronteira com a Ucrânia. Soldados e equipamentos militares foram removidos da região em trens e caminhões e enviados de volta para suas guarnições, segundo as autoridades do Kremlin, em um possível sinal de que a Rússia pode estar se afastando da ameaça de uma invasão - versão questionada pela Otan, que diz não ver nenhum indício de retirada russa.

O anúncio foi o sinal mais concreto até agora de que Vladimir Putin pode estar tentando diminuir o impasse militar perto da fronteira ucraniana e coincide com o novo aceno de Moscou às negociações diplomáticas. Apesar disso, a iniciativa russa ainda é vista com cautela por autoridades ocidentais.

Em Bruxelas, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, reagiu ao anúncio russo e disse ver motivos para um "otimismo cauteloso" sobre a dissolução do conflito, mencionando a disposição Moscou em continuar as negociações. No entanto, o comandante da aliança ocidental afirmou que ainda não já nenhum sinal "de desescalada no terreno".

“Não vimos nenhuma redução da escala [militar] no terreno, nenhum sinal de presença militar russa reduzida na fronteira com a Ucrânia”, disse Stoltenberg a repórteres.

O representante da Otan ainda afirmou que a aliança militar busca uma retirada “significativa e duradoura” das forças, tropas e equipamentos pesados russos das áreas que fazem fronteira com a Ucrânia como um sinal real de desescalada.

Outros membros da aliança militar ocidental também se manifestaram. A representante dos EUA na Otan, Julianne Smith, disse que o governo americano também observou os relatos de retirada russa, mas "terão que verificar se esse é de fato o caso". "Esses relatórios acabaram de sair (...). Vamos avaliar a situação, vamos trabalhar para tentar verificar".

Uma autoridade ocidental ouvida pelo The Washington Post expressou ceticismo em relação às alegações da Rússia. "Tanto hoje quanto nos últimos dias, não vimos evidências de desescalada", disse a fonte ouvida em anonimato.

A Rússia não informou quantas tropas estavam sendo retiradas, e um porta-voz do Ministério da Defesa, Igor Konashenkov, disse que alguns exercícios militares que levantaram temores de um ataque contra a Ucrânia - inclusive em Belarus e no Mar Negro - continuam.

Na segunda-feira, o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, caracterizou o acúmulo de quase 140 mil soldados russos em torno da Ucrânia como parte de “exercícios de grande escala” realizados pelos militares. Ele disse ao presidente Vladimir Putin em uma reunião transmitida pela televisão estatal uma reunião transmitida pela televisão estatal que alguns desses exercícios estavam terminando.

Na terça-feira, Konashenkov disse em um comunicado televisionado que algumas tropas dos distritos militares do sul e do oeste “completaram suas tarefas” e estavam voltando para suas bases. A televisão estatal russa transmitiu imagens de tanques sendo carregados em vagões, descrevendo como imagens de tropas voltando para suas guarnições.

“Vários eventos de treinamento de combate, incluindo exercícios, foram realizados de acordo com o planejado”, disse Konashenkov. “À medida em que os eventos de treinamento de combate forem concluídos, as tropas, como sempre, marcharão de forma combinada para seus pontos permanentes.”

As tropas que Konashenkov disse que estão sendo retiradas são dos distritos militares mais próximos da Ucrânia - o que significa que as tropas permanecerão relativamente próximas do país, mesmo que sejam retiradas de volta às suas bases. Sua declaração indicou que as tropas que chegaram à região de mais longe - como da Sibéria e Extremo Oriente da Rússia - permaneceriam posicionadas perto da Ucrânia por enquanto.

Não houve confirmação imediata de autoridades ucranianas ou ocidentais de que uma retração russa estava ocorrendo. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmitro Kuleba, disse que havia motivos para ser cético em relação às declarações de Moscou.

“Quando virmos a retirada, vamos acreditar na desescalada”, disse Kuleba a repórteres durante uma entrevista em vídeo de Kiev.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, caracterizou os movimentos de tropas como de rotina e continuou a descrever as advertências ocidentais sobre o aumento militar da Rússia como exageradas.

“É nosso direito realizar exercícios onde quisermos em nosso território; não precisa ser discutido com ninguém”, disse Peskov. Ele acrescentou que a Rússia sempre teve a intenção de, quando os exercícios terminassem, “fazer as tropas voltarem para seus quartéis. Isto é o que está acontecendo desta vez também; não há nada novo.”

Autoridades dos EUA estimaram que a Rússia acumulou quase 140 mil soldados ao redor da Ucrânia. Autoridades da Otan dizem que cerca de 30.000 soldados russos foram enviados à Belarus, inclusive perto da fronteira norte da Ucrânia, para exercícios programados para terminar no domingo.

Esforço diplomático para conter crise na Ucrânia

O anúncio do Ministério da Defesa veio enquanto o Ocidente mantém os esforços diplomáticos para evitar uma invasão. O chanceler da AlemanhaOlaf Scholz, se encontrou com Putin em Moscou nesta terça-feira, 15, e após uma reunião que durou cerca de três horas, ambos concordaram em colocar em pauta algumas das demandas russas sobre segurança europeia, como limites para a implantação de mísseis de alcance intermediário na Europa, a transparência de exercícios militares e outras medidas de construção de confiança. O limite à expansão da Otan voltou a ser ponto de discordância.

Na segunda-feira, 14, o presidente russo se reuniu com seus ministros das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, e da Defesa, Serguei Shoigu, que passaram mensagens mais brandas em relação a disposição russa de negociar o fim da crise na Ucrânia. 

Mesmo com navios de guerra russos participando de exercícios militares próximos a costa ucraniana no Mar Negro e com os Estados Unidos alertando para o risco iminente de tropas russas atacarem o país vizinho em diferentes direções, o chefe da diplomacia da Rússia, Serguei Lavrov, recomendou ao presidente Vladimir Putin que mantivesse as portas abertas para negociações com o Ocidente. De acordo com Lavrov, a possibilidade de uma resolução diplomática para a crise está "longe de se esgotar" e pediu a intensificação das conversas com os líderes da Otan.

Em uma reunião televisionada - e aparentemente roteirizada - com Putin na segunda-feira, 14, o chanceler russo disse que apoiava a continuidade das negociações com o Ocidente sobre as "garantias de segurança" que a Rússia vem exigindo dos EUA e seus aliados da Otan. 

"Acredito que nossas possibilidades estão longe de se esgotarem", disse Lavrov, referindo-se às negociações da Rússia com o Ocidente. “Eu proporia continuar e intensificá-los.” Putin respondeu simplesmente: "Bom".

A reunião exibida em rede nacional foi um sinal de que a Rússia pode continuar usando a ameaça de uma invasão à Ucrânia para tentar espremer concessões diplomáticas do Ocidente, em vez de recorrer à ação militar imediata.

Desde o início da atual escalada de hostilidades, Moscou tem como principal exigência a garantia por escrito de que a Ucrânia nunca será autorizada a ingressar na Otan. Além disso, o Kremlin também solicitou a retirada das forças ocidentais de toda a Europa Oriental - antiga zona de influência da União Soviética.

Os EUA e a Otan rejeitaram formalmente essas exigências, mas indicaram que várias áreas - incluindo controle de armas nucleares e limites de exercícios militares - estavam abertas para negociação, mas o Kremlin não respondeu formalmente.

Putin voltou a se opor ao que chama de "interminável e muito perigosa expansão da Otan para o Leste", mas apoiou a conclusão de Lavrov sobre a necessidade de manter o diálogo em aberto, informou a agência de notícias russa RIA Novosti, citando o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Ucrânia pode desistir da Otan

Na segunda, pressionado pela presença militar russa em suas fronteiras, o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, deu sinais de que seu país pode desistir de aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - uma das principais reivindicações do Kremlin em meio à tensão entre os dois países.

Nas últimas horas, o Pentágono informou ter registrado o movimento de helicópteros russos perto da fronteira e a entrada de mercenários em território ucraniano. O Departamento de Estado decidiu hoje transferir a embaixada americana de Kiev para o interior do país. 

A entrada da Ucrânia na Otan – uma aspiração inscrita até mesmo na constituição do país – é considerada uma ameaça existencial pela Rússia, e o motivo da atual crise.

Ao lado do chanceler alemão, Olaf Scholz, Zelenski disse que a questão de ter acesso aberto à Otan seja não mais que um sonho. As declarações do presidente se seguem à entrevista do embaixador ucraniano em Londres, Vadym Prystaiko, à BBC, no domingo, quando ele também declarou que a Ucrânia poderia desistir da adesão, caso isso impedisse um conflito. 

“Podemos desistir (da Otan), até mesmo porque estamos sendo pressionados e chantegeados para isso”, disse o diplomata. “Estamos sendo flexíveis para encontrar a melhor maneira de sair disso”./NYT, W.POST, AP e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.