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Rússia tem seus preferidos na disputa pelo poder na França

Depois da desenvoltura mostrada quando fez tudo para Hillary Clinton ser derrotada por Donald Trump, Vladimir Putin agora investe seus talentos contra Emmanuel Macron, candidato de centro-esquerda

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2017 | 05h00

Direita em estado de alerta! Esse foi o alarmista título recente do jornal Figaro, a propósito das próximas eleições presidenciais na França. O Figaro é o grande jornal da burguesia rica de direita. Ele apoiou com enorme entusiasmo o ex-presidente Nicolas Sarkozy, como apoia agora François Fillon, candidato do partido Republicanos. Se o jornal fez esse alerta é porque a direita clássica está gravemente ameaçada. E por quem? Primeiramente, pela liderança nas pesquisas do candidato de centro-esquerda, Emmanuel Macron. Depois pela da ultraconservadora Marine Le Pen, bem próxima de Macron nas intenções de voto. Fillon, candidato da direita clássica, deverá se contentar apenas com um terceiro lugar. 

No segundo turno, Le Pen não deve aumentar sua pontuação, ao passo que Macron, pelo contrário, deverá atrair muito mais eleitores querendo bloquear a ascensão da candidata. Portanto, no caso de Fillon, o inimigo a derrotar é o candidato de centro, que ele tem atacado violentamente, com insultos, ofensas e insinuações. 

É interessante constatar que, nessa empreitada, Fillon conta com um aliado de peso: o presidente russo, Vladimir Putin. Com a desenvoltura que já foi mostrada quando fez tudo para Hillary Clinton ser derrotada por Trump, Putin agora investe seus talentos contra o candidato de centro-esquerda.

Os russos propagaram para todo o lado que Macron é homossexual. “Ele é casado com uma mulher, mas que casal estranho”, dizem as rádios e os jornais russos. “Essa mulher é 25 anos mais velha do que ele. Acham isso normal?”. Além disso, segundo a imprensa russa, ele teria embolsado € 120 mil do orçamento do Estado francês para financiar sua campanha eleitoral. Putin já agiu do mesmo modo contra Hillary Clinton. E agora pretende interferir com toda força nas eleições francesas.

A agência russa Sputnik fez outra afirmação ainda mais perturbadora: “Emmanuel Macron é um agente americano a serviço dos bancos” e realizou uma viagem secreta aos EUA há dois meses para um encontro com um lobista homossexual americano muito rico (claro que todas essas histórias são pura mentira).

Por que Moscou vem disparando a torto e a direito contra Macron, que é de centro-esquerda, e ao mesmo tempo poupa os dois outros candidatos, a fascista Le Pen e o representante da direita, Fillon? Marine Le Pen é muito próxima da Rússia. Sua campanha eleitoral é financiada por bancos russos. E Fillon jamais escondeu que, se eleito, fará de tudo para restabelecer as relações de confiança com a Rússia.

A predileta de Putin na verdade é Le Pen. Isso porque ela afirma constantemente que sua primeira medida, se eleita presidente da República, será retirar a França da União Europeia, o que constituirá um golpe fatal para a organização de Bruxelas que, do mesmo modo que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é o pesadelo de Putin. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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