Alexey Nikolsky/AFP - 24/2/2022
A invasão russa foi iniciada em 24 de fevereiro e causou a pior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Alexey Nikolsky/AFP - 24/2/2022

Rússia exige que Ucrânia reconheça neutralidade e territórios separatistas para pôr fim à invasão

Em Belarus, representantes de Rússia e Ucrânia concluíram hoje a terceira rodada de negociações, sem avanços significativos

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 14h33
Atualizado 08 de março de 2022 | 15h57

LONDRES - A Rússia disse à Ucrânia que está pronta para interromper as operações militares "em um momento" se Kiev cumprir uma lista de condições, disse o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov nesta segunda-feira, 7. Entre as reivindicações estão o fim das operações militares da Ucrânia, o reconhecimento da Crimeia e das províncias de Donetsk e Luhansk como território russo. O Kremlin também exige que Kiev altere sua Constituição para garantir a neutralidade entre Moscou e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), comprometendo-se a não aderir à aliança -- proposta classificada pelo presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, como um "ultimato".

Foi a declaração russa mais explícita até agora dos termos que quer impor à Ucrânia para interromper a invasão, que já dura 12 dias. Depois do começo relâmpago da ofensiva, os russos controlam quase toda a costa do Mar Negro e avança pelo norte da Ucrânia rumo a Kiev e Kharkiv. Há relatos de que as tropas russas preparam um cerco dessas cidades, as maiores da Ucrânia e de ataques indiscriminados a civis. 

Zelenski respondeu sobre as exigências russas ainda nesta segunda, durante uma entrevista exclusiva à rede americana ABC News. O presidente ucraniano classificou a proposta como um "ultimato", mas disse que estava disposto a discutir o que chamou de "itens-chave" da negociação.

"A questão é mais difícil do que simplesmente reconhecer [as demandas russas]. Este é outro ultimato e não estamos preparados para ultimatos. Mas temos a possível resolução para esses três itens-chave. O que é preciso fazer é o presidente [Vladimir] Putin começar a falar, começar o diálogo, em vez de viver em uma bolha informacional sem oxigênio. Acho que é onde ele está: ele está nessa bolha, está recebendo informação, e você não sabe o quão realista são essas informações que ele está recebendo", disse Zelenski em entrevista exclusiva à rede americana ABC News.

Mais cedo, representantes de Rússia e Ucrânia concluíram a terceira rodada de negociações, realizada em Belarus, sem avanços significativos. Segundo o negociador ucraniano Mykhailo Podolyak, as conversas tiveram pequenos avanços na melhoria da logística dos corredores humanitários. Houve discusões sobre um cessar-fogo e garantias de segurança para a retirada de civis, mas ainda não há resultados que melhorem significativamente a situação.

Uma nova rodada de negociações com a presença dos chanceleres dos dois países foi marcada para a quinta-feira, 10, na Turquia.

Registro

Peskov disse à Reuters, em entrevista por telefone, que a Ucrânia estava ciente das condições. "E eles foram informados de que tudo isso pode ser interrompido em um momento."

Não houve reação imediata do lado ucraniano.

O porto de Mariupol vive um cerco e está sem água, luz e gás, com a comida começando a ficar escaça. A invasão, lançada em 24 de fevereiro, causou a pior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com 1,7 milhão de pessoas fugindo para outros países do leste europeu, como a Polônia, a Romênia e a Eslováquia

"Nós realmente estamos terminando a desmilitarização da Ucrânia. Nós vamos terminar isso. Mas o principal é que a Ucrânia cesse sua ação militar. Eles deveriam parar sua ação militar e então ninguém atirará", disse Peskov.

Sobre a questão da neutralidade, Peskov disse: "Eles deveriam fazer emendas à constituição segundo as quais a Ucrânia rejeitaria qualquer objetivo de entrar em qualquer bloco".

Ele acrescentou: "Também falamos sobre como eles devem reconhecer que a Crimeia é território russo e que eles precisam reconhecer que Donetsk e Luhansk são estados independentes. E é isso. Vai parar em um momento".

Novas conversas

O esboço das demandas da Rússia veio enquanto delegações da Rússia e da Ucrânia se preparavam para se reunir na segunda-feira para uma terceira rodada de negociações com o objetivo de encerrar a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

"Não somos nós tomando Luhansk e Donetsk da Ucrânia. Donetsk e Luhansk não querem fazer parte da Ucrânia. Mas isso não significa que eles devam ser destruídos como resultado", disse Peskov. "Para o resto, a Ucrânia é um estado independente que viverá como quiser, mas sob condições de neutralidade."

Mesmo sem grandes avanços no encontro desta segunda, uma nova rodada de negociações foi marcada para a quinta-feira, 10, entre o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e o homólogo ucraniano, Dmitro Kuleba. O encontro, que pode ser a primeira conversa entre os chefes das diplomacias dos dois países desde o começo da invasão russa à Ucrânia, em 24 de fevereiro,  será realizada no sul da Turquia.

O encontro entre os diplomatas foi anunciada pelo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, que também participará da reunião na cidade turística de Antália. O plano foi confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia. / REUTERS

 

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Chanceleres da Rússia e da Ucrânia marcam encontro na Turquia

Rodada de negociações está marcada para a quinta-feira, 10, na cidade de Antália, e pode marcar o primeiro encontro entre a cúpula das diplomacias dos dois países desde o início da invasão

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2022 | 17h22
Atualizado 08 de março de 2022 | 15h49

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, e o homólogo ucraniano, Dmitro Kuleba, concordaram em se reunir em um fórum no sul da Turquia na quinta-feira, 10, no que pode ser a primeira conversa entre os chefes das diplomacias dos dois países desde o começo da invasão russa à Ucrânia, em 24 de fevereiro.

Mevlut Cavusoglu, ministro das Relações Exteriores da Turquia, fez o anúncio nesta segunda-feira, 7, e disse que participaria da reunião na cidade turística de Antália. O plano também foi confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia e pelo ministro ucraniano, que declarou nesta segunda que se Lavrov estava pronto para "uma conversa séria e substantiva", ele também estaria.

A Turquia, membro da Otan, que compartilha uma fronteira marítima com a Rússia e a Ucrânia no Mar Negro, estava oferecendo uma mediação entre os lados. Ancara tem boas relações com Moscou e Kiev, e ao mesmo tempo que chamou a ação militar da Rússia de inaceitável, opôs-se às sanções contra o país.

Cavusoglu disse que em uma ligação com o presidente russo, Vladimir Putin, no domingo, o presidente Recep Tayyip Erdogan repetiu a oferta da Turquia para sediar a reunião, o que foi aceito por Lavrov mais tarde.

"Esperamos especialmente que este encontro seja um ponto de virada e um passo importante para a paz e a estabilidade", disse ele, acrescentando que ambos os ministros pediram para ele participar das negociações.

O anúncio veio após dois dias de fracassadas tentativas de estabelecer um cessar-fogo para a criação de corredores humanitários para a retirada de civis de Mariupol, onde centenas de milhares de pessoas estão presas sem comida e água, sob bombardeio implacável e incapaz de retirar seus feridos em meio ao cerco das tropas russas.

Ao estabelecer relações estreitas com a Rússia em matéria de defesa, comércio e energia, recebendo milhões de turistas russos todos os anos, a Turquia também vendeu drones para a Ucrânia, irritando Moscou. Ancara também se opõe às políticas russas na Síria e na Líbia, e também se opôs à anexação da Crimeia da Ucrânia pela Rússia em 2014.

'Fim da guerra'

Representantes dos governos russo e ucraniano reunidos em Belarus concluíram a terceira rodada de negociações nesta segunda-feira, sem alcançar avanços significativos. De acordo com o negociador ucraniano Mykhailo Podolyak, as conversas tiveram pequenos avanços na melhoria da logística dos corredores humanitários. Houve discusões sobre um cessar-fogo e garantias de segurança para a retirada de civis, mas ainda não há resultados que melhorem significativamente a situação.

Apesar disso, um aceno do primeiro escalão do governo russo sinalizou com a possibilidade de um término imediato para a invasão da Ucrânia. O principal porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, declarou que a Rússia está pronta para interromper as operações militares "em um momento" se Kiev cumprir uma lista de condições, que incluem o fim das operações militares do país, o reconhecimento da Crimeia e das províncias de Donetsk e Luhansk como território russo e uma alteração em nível constitucional para garantir que a Ucrânia mantenha uma neutralidade entre Moscou e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), comprometendo-se a não aderir à aliança.  

Foi a declaração russa mais explícita até agora dos termos que quer impor à Ucrânia para interromper a invasão, que já dura 12 dias. 

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