Rússia vê ‘anarquia’ no leste ucraniano

Moscou fala em ‘defender’ comunidades russas em outras regiões da Ucrânia; Otan envia aviões de espionagem à Polônia e à Romênia

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL

11 Março 2014 | 00h29

A Rússia criticou nesta segunda-feira o estado de "anarquia" em que está mergulhado o leste da Ucrânia. O alerta foi feito em nota oficial da chancelaria, em Moscou, e reforça as dúvidas sobre as intenções do governo russo para o resto do país. Além da Crimeia, que no domingo realiza um referendo - com apoio de Vladimir Putin - sobre a secessão da Ucrânia e a anexação à Rússia, regiões como Donetsk começam a reivindicar votações similares.

As críticas foram feitas um dia após as manifestações pró-Europa e pró-Rússia que tomaram as maiores cidades da Ucrânia no fim de semana. Segundo a chancelaria russa, a "anarquia reina" e o governo interino que sucedeu o presidente deposto Viktor Yanukovich estaria associado ao movimento paramilitar de extrema direita Setor Direito.

O documento fez referências a supostos atos de violência e detenções arbitrárias que a comunidade russa da Ucrânia estaria sofrendo. Um dos exemplos citados foram os disparos feitos na cidade de Kharkiv, no sábado, e a prisão de sete jornalistas russos em Dnipropetrovsk. "O silêncio vergonhoso de nossos parceiros ocidentais, de organizações de direitos humanos e da mídia estrangeira é surpreendente", acusou Moscou. "Ele levanta uma questão: onde estão a célebre objetividade e o engajamento com a democracia?"

Após reunião com Putin nesta segunda, o chanceler Serguei Lavrov informou que a Rússia se prepara para apresentar uma série de propostas para resolver a crise política na Ucrânia. "Preparamos nossas próprias propostas para enquadrar a situação no Direito Internacional, levando em conta os interesses de todos os ucranianos, sem exceção", disse Lavrov, que criticou as medidas sugeridas pelo Ocidente. "Encontramos uma concepção que não nos convém, porque tudo é formulado no sentido de um suposto conflito entre Rússia e Ucrânia."

Em contrapartida, o primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, que participará de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, na quinta-feira, pediu mais uma vez à Rússia que retire seu apoio ao referendo de domingo. "A Federação Russa deve anular com urgência o referendo que ocorrerá na Crimeia, que é parte inalienável da Ucrânia", afirmou. "Não há nenhum poder legítimo na Crimeia. São criminosos que chegaram ao poder por meios anticonstitucionais e com a proteção de 18 mil soldados russos."

Para Yatseniuk, Putin estaria disposto a criar conflitos com o Ocidente. "A política da Rússia está dirigida para bombardear as bases da segurança global e para a revisão dos resultados da 2.ª Guerra".

Referendo. Enquanto Kiev protestava, o primeiro-ministro da Crimeia, Serguei Axionov, detalhou o funcionamento do referendo de domingo. De acordo com ele, haverá duas questões a serem respondidas. A primeira é sobre a secessão da Ucrânia: "Você é a favor da reunificação da Crimeia com a Federação Russa?". A segunda diz respeito ao aumento de autonomia em relação à Ucrânia: "Você é a favor que a Constituição da Crimeia de 1992 e o status da Crimeia como parte da Ucrânia voltem a vigorar?"

Segundo ele, a anexação pela Rússia poderia ser concluída "em meses". Axionov assegurou que, em caso de vitória da anexação à Rússia - cenário mais provável, já que 58% da população local é de origem russa -, os trabalhos começarão na segunda-feira, independentemente do reconhecimento da comunidade internacional.

"Se a consulta popular disser que a Crimeia deve fazer parte da Rússia, começaremos a trabalhar à meia-noite do dia seguinte e tentaremos nos instalar o mais rápido possível no campo legislativo da Rússia", disse Axionov, citando a adoção do rublo como um dos desafios.

Ele reiterou ainda que não vai impor aos ucranianos da Crimeia uma decisão sobre qual nacionalidade pretendem adotar, não imporá o idioma russo nem restringirá as liberdades da comunidade tártara, a população turca da Europa e da Ásia Central que vive no país.

Tensão. Enquanto nas ruas da Crimeia a situação foi de calma nesta segunda-feira, o Parlamento, em Simferopol, seguia cercado por milícias armadas, como ocorre há 10 dias. No campo militar a tensão também segue elevada. Soldados russos que cercam a base naval ucraniana de Bakhchisarai atiraram para o alto. A escalada bélica foi seguida pelo Ocidente. A Otan anunciou que enviará 17 aviões-radares de reconhecimento Boeing 707 Awacs à Polônia e à Romênia. As aeronaves virão de bases na Alemanha e na Grã-Bretanha.

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